Uso de contraceptivos orais contendo drospirenona em regime estendido para o controle dos sintomas menstruais

Hugo Maia Filho
Diretor Científico - SOBRAGE

A repetição incessante das menstruações, uma das características da mulher moderna ocidental, é um fator de risco para o desenvolvimento de várias patologias como a endometriose, miomas, adenomiose, anemia e a TPM (1). A razão pela qual as menstruações seriam responsáveis pelo desenvolvimento de tão grande número de patologias está no fato deste processo envolver a ativação de vários fatores inflamatórios como as prostaglandinas no endométrio.  Estas são produzidas no tecido endometrial pela ação da Cox-2 cuja atividade é estimulada pelos estrogênios e inibida pela progesterona (2). A queda na produção da progesterona no final do ciclo menstrual é o fator que deflagra o aumento da inflamação e da produção de prostaglandinas no endométrio e isto se dá através da ativação da Cox-2 e o do fator inflamatório NF-Kappa.b (3,4,5).  Todo este processo inflamatório é inibido pela presença contínua da progesterona, o que explica o efeito benéfico que a gestação tem na incidência das diversas patologias estrogênio-dependentes, como por exemplo, a endometriose.

A atividade da Cox-2 no endométrio está relacionada diretamente com a quantidade do fluxo menstrual e a gravidade da dismenorréia, e isto sugere que a intensidade dos sintomas menstruais é proporcional ao grau de inflamação endometrial (1,6).  Pacientes sintomáticas, principalmente as adolescentes, podem já apresentar estas alterações inflamatórias funcionais no endométrio, que se não corrigidas, podem levar à ativação da enzima aromatase neste tecido com o conseqüente risco de desenvolver endometriose (2).  O uso contínuo de contraceptivos orais combinados com a finalidade de imitar uma gravidez do ponto de vista endócrino seria uma solução lógica para estas mulheres jovens com sintomas menstruais importantes e que não desejem gestar no momento (7).  

Recentemente, inúmeros estudos têm mostrado que o uso de contraceptivos orais em regime estendido é mais eficaz para o controle dos sintomas menstruais que os regimes clássicos de 21/7 dias. Entre estes sintomas podemos mencionar a dismenorréia, menorragia, cefaléia e as alterações de humor que fazem parte da tensão pré-menstrual.  Neste grupo de pacientes, o uso contínuo de contraceptivos orais traz também a vantagem de reduzir o número de dias de sangramento embora a ocorrência de spotting e sangramento irregular seja ainda um dos efeitos adversos observados durante o uso de contraceptivos orais sem a pausa. Em pacientes utilizando contraceptivos orais contendo 3 mg de drospirenona e 30 mcg de etinilestradiol, 56% das pacientes estavam em amenorréia no sexto mês de tratamento (8). No restante dos casos ocorreram episódios de sangramento uterino irregular que foram controlados recomendando às pacientes que parassem o uso do contraceptivo por três dias. Isto permite instituir um regime flexível no qual a paciente usa o contraceptivo de maneira continua, parando sempre que surgir um sangramento irregular que seja significativo para a usuária. Este regime flexível não anula as vantagens obtidas com o uso estendido da drospirenona para o tratamento da dor pélvica, da cefaléia e da tensão pré-menstrual (8). 

Recentemente, a ANVISA aprovou o uso da formulação contendo 3 mg de drospirenona e 30 mcg de etinilestradiol (Elani 28) para ser usada de maneira contínua com a finalidade de suprimir a menstruação. Um estudo clínico feito recentemente no Brasil em três centros (Salvador, Jundiaí e São Paulo) utilizando a drospirenona 3 mg/ etinilestradiol 30 mcg em regime estendido encontrou um taxa de amenorréia de 62% no sexto mês de tratamento. Na população brasileira o uso contínuo da drospirenona foi também mais eficaz que o regimento com pausa para o tratamento da dismenorréia, cefaléia e acne. Sintomas adversos como náusea e aumento do apetite também ocorreram em menor freqüência no grupo das pacientes que utilizaram a drospirenona em regime contínuo. Estes resultados são semelhantes aos observados em estudos feitos na Europa e nos Estados Unidos utilizando a  mesma formulação e sugerem que estes regimes contínuos com drospirenona e etinilestradiol são mais eficazes que os com pausa para o tratamento dos sintomas ligados à menstruação, inclusive os sintomas físicos da tensão pré-menstrual (9, 10).   

A supressão da menstruação foi uma das grandes conquistas médicas dos últimos anos segundo a revista norte-americana TIME. O controle deste processo permitiu a mulher moderna ter uma melhora da sua qualidade de vida, já que os sintomas menstruais podem ter um impacto negativo sobre esta (1).  O uso de contraceptivos orais de maneira contínua suprime a Cox-2 e outros mediadores inflamatórios, diminuindo assim tanto a inflamação como a produção de prostaglandinas no endométrio, o que leva a uma redução não só dos sintomas menstruais, mas também do risco de desenvolver patologias estrogênio-dependentes como a endometriose  (1,7).

Bibliografia

  1. Coutinho EM.  Is Menstruation Obsolete? Oxford Press 2000
  2. Maia H Jr, Casoy J, Valente J.  Is aromatase expression in the endometrium the cause of endometriosis and its related infertility? Gynecol.Endocrinol 2009. 25(4) 253-7.
  3. Modugno F, Ness RB, Chen C et al. Inflammation and endometrial cancer: a hypothesis. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev 2005; 14: 2840-7.
  4. Burg BVD, Tvan der Saag P. Nuclear factor Kappa.b steroid hormone receptor interactions as a functional basis of anti-inflammatory action of steroids in reproductive organs. Mol. Hum Reprod 2(6):433-38, 1996.
  5. Sugino N, Karube-Harada A, Taketani T, Sakata A, Nakamura Y. Withdrawal of ovarian steroids stimulates prostaglandin F2alpha production through nuclear factor-kappaB activation via oxygen radicals in human endometrial stromal cells: potential relevance to menstruation. J Reprod Dev. 2004 Apr;50(2):215-25.
  6. Smith OP, Jabbour HN, Critchley HO. Cyclooxygenase enzyme expression and E series prostaglandin receptor signalling are enhanced in heavy menstruation. Hum Reprod. 2007 May;22(5):1450-6.
  7. Maia H Jr. and Casoy J. Non-contraceptive health benefits of oral contraceptives.  Eur J Contracept Reprod Health Care 2008 Mar 13(1):17-24.
  8. Coffe AL,  Sulak PJ, Kuehl TJ. Long-term assessment of symptomatology and satisfaction of an extended oral contraceptive regimen. Contraception. 2007; 75: 444-9.
  9. Foidart JM, Sulak PJ, Schellschmidt I, Zimmerman D.  Yasmin Extended Regimen Study Group.  The use of an oral contraceptive containing ehtinylestradiol and drospoirenone in an extended regimen over 126 days.  Contraception. 2006 Jan;73(1):34-40.
  10. Sillem M, Schneidereit R, Heithecker R, Mueck AO.  Use of an oral contraceptive containing drospirenone in an extended regimen.  Eur J Contracept Reprod Health Care. 2003 Sep;8(3):162-9.

 

 


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