Utopia da Igualdade

Elsimar Coutinho

Ainda adolescente assisti a um filme sobre a revolução francesa e fiquei fortemente impressionado com a aspiração do povo pela tríade libertária que propunha "Fraternité, Egalité e Liberté" para todos.

A proposta me parecia imbatível até me familiarizar mais tarde com as análises de Karl Popper, o socialista austríaco e filósofo da ciência, que tendo vivido na época em que o nazismo cometia atrocidades na Europa tornou-se um dos líderes da intelectualidade acadêmica na luta contra o fascismo.

Aliou-se assim aos comunistas, mas ao ter que escolher entre a igualdade que propunham os comunistas e a liberdade que suprimiam, Popper optou pela liberdade.

A igualdade parecia ao filósofo um direito difícil de assegurar, pelo menos, enquanto o mundo vivesse sob o perigo de dominação por tiranos de esquerda ou de direita que, na realidade, não asseguravam nem fraternidade nem igualdade e nem liberdade a ninguém.

Seguindo a linha racional de Popper e outros pensadores e filósofos como Max Weber e Raymond Aron compreendi que não seria difícil para a humanidade desenvolver sistemas de governo como a democracia que assegurassem tanto a liberdade quanto a fraternidade aos povos.

A igualdade, entretanto, me parecia difícil senão impossível de assegurar, mesmo na democracia, num planeta governado pelas leis da natureza que nos faz tão diferentes uns dos outros. Pretos, brancos, amarelos, índios, mestiços, glabros, peludos, altos, baixos, gordos, magros, feios, bonitos, fortes e fracos, sadios e doentes.

Igualdade do ponto de vista biológico só se fossemos clones. Aliás, considerando apenas o aspecto biológico, a desejada igualdade continua uma impossibilidade porque cada um de nós é formado pela aglomeração de mais de um trilhão (1.000.000.000.000) de células (que alcançam dez trilhões na idade adulta) e que se reproduzem continuamente até serem substituídas quando morrem.

Por isso nem clones podem ser iguais. Irmãos gêmeos univitelinos são muito parecidos e indistinguíveis à primeira vista, porém são na realidade completamente diferentes, principalmente nas suas mentes.

A dificuldade de assegurar igualdade é particularmente notável entre os diversos clones de vegetais que assumem aparência bem diversa quando recebem adubo ou molhada diferente. Mesmo que recebam quantidades iguais de água, luz e nutrientes, duas arvores que se originam de uma mesma semente terão aparência diferente na altura, na copa, no tronco, nos galhos, nas folhas, nas flores, nos frutos e até nas cores das pétalas.

A biodiversidade é o alvo da Natureza porque sem ela a vida no planeta estaria condenada a desaparecer.

O equilíbrio entre os organismos é baseado na variedade das espécies e na multiplicidade de indivíduos diferentes.

Cruzar irmãos com a finalidade de obter filhos com as qualidades da família resulta geralmente em degeneração.

A individualidade é de tal modo exclusiva que podemos concluir que não existem nem podem existir dois seres vivos iguais no planeta.

Conseqüentemente, a igualdade biológica é como a vida eterna, inalcançável.

Entretanto, em discussões de caráter político a igualdade que se procura assegurar a todos se define como sendo apenas a igualdade de direitos.

Mas mesmo nesse caso a dificuldade de satisfazer o ideal é aparente.

Direitos a gratuidades prometidas por políticos, como transporte, escola primária, secundária e universidade, só poderiam ser assegurados a todos se todos tivessem capacidade, talento, inteligência e aptidão para deles usufruir os benefícios e para isso seria necessário, em primeiro lugar, que todos fossem biologicamente aptos para se beneficiar.

Senão alunos com mau aproveitamento teriam direito às boas notas dos seus colegas, mais estudiosos e mais atentos, sendo igualmente aprovados e promovidos.

Teríamos de fazer o que fizeram os maoístas na China acabando com a hierarquia no exército e nas universidades, mandando os generais dar sentinela e os professores varrer as ruas das cidades. Apesar do uso da força ter "igualado" os professores e cientistas aos semi-analfabetos que apoiavam o governo, certamente que estes últimos não ficaram "iguais" aos professores e cientistas.

Nos regimes comunistas, as tentativas de proporcionar igualdade aos sem-teto, sem-terra e sem-emprego foram justamente de igualar por baixo, única forma possível. Como não podiam transformar todos os soldados em generais havia apenas que rebaixar os generais a soldados. A tentativa obviamente foi um fracasso e com a morte de Mao, seus sucessores restauraram a hierarquia pondo os recrutas no seu lugar. Os professores e cientistas também retornaram às suas cátedras ou laboratórios e os agricultores voltaram a fazer o que sabiam.

Os bens materiais acumulados durante a vida do cidadão podem ser confiscados pelo Estado e distribuídos com os pobres, mas o talento, a inteligência, a criatividade, a memória e a perseverança jamais poderão ser subtraídos do indivíduo e redistribuídos porque a herança genética será sempre dos filhos naturais. Não basta ser rico e bonito para ser o que você quer ser. Não basta ter um diploma para você ter competência, como não basta ser eleito para ter o poder. Há que ter inteligência e dedicação ao estudo. Há que ter talento para ser um grande artista. Há que ter perseverança e até um pouco de sorte. Para os que têm fé será necessário até um empurrão do Divino!

No Brasil a chegada da esquerda ao poder foi acompanhada de temores de que o novo governo que mantém laços estreitos com Cuba, tentasse repetir os erros cometidos pelas ditaduras comunistas como controlar a imprensa desapropriando e estatizando os jornais ou simplesmente proibindo a publicação de críticas ao governo. Felizmente para os brasileiros os temores não se concretizaram, revelando-se a maioria dos petistas democratas autênticos, respeitadores da propriedade privada e dos direitos das minorias como as crianças, os idosos, os descendentes dos escravos, os índios e os deficientes físicos, que certamente devem gozar de privilégios. Por força das circunstâncias, os petistas foram até além, abraçando o modelo capitalista de economia do mercado.

O máximo que se pode obter de igualdade é um mínimo necessário para que todos sobrevivam saudáveis, abrigados, alimentados, protegidos e informados. Eu colocaria como direito número um o direito de ter um pai ou um tutor porque sem o pai fica muito difícil para a criança de ter os seus outros direitos (saúde, alimento, moradia, proteção e informação) assegurados. Por isso defendo o planejamento familiar com a paternidade responsável como o melhor instrumento para assegurar direitos básicos a todos.


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