Considerações sobre Aspectos Psicossociais da Perda da Capacidade Reprodutiva no Climatério

Sônia Maria Rolim Rosa Lima

Professora Assistente do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia

Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Delegada SOBRAGE São Paulo

 

 

Climatério é o período de vida da mulher em que ocorre a perda da capacidade reprodutora natural; é a passagem do período reprodutivo para o não reprodutivo.

 

Trata-se de fase de transição marcada por alterações hormonais e emocionais.

Entende-se por menopausa a data do último fluxo menstrual, porém seu diagnóstico é retrospectivo, isto é, só firmado após ter transcorrido um ano do referido evento.

 

Nós acreditamos ser o período do climatério uma fase de evolução onde o organismo feminino, até então, mais direcionado a gerar vida, dirigi-se livremente a outros fins, possibilitando que ela desenvolva todas suas potencialidades.

 

A mulher apresenta períodos marcantes em sua vida; a primeira menstruação, a primeira gestação e a última menstruação com conseqüente perda da capacidade reprodutora.

 

A maioria passa naturalmente por todas as fases somente sendo opcional a gestação, porém tal decisão não é fácil, podendo ser acompanhada de importantes questionamentos e conflitos.

 

A perda da capacidade reprodutiva, como qualquer período de crise pode causar forte impacto emocional, com notáveis repercussões psíquicas.

 

Além das alterações decorrentes da carência hormonal com efeitos orgânicos significativos, a mulher está inserida em uma sociedade com suas normas e valores com influência direta em seu psiquismo, podendo levar também a forte impacto em sua qualidade de vida.

 

As alterações psíquicas, próprias de períodos de crise, possuem características estritamente pessoais e afloram com intensidade e duração variáveis a depender da capacidade de adaptação e solução de problemas.

 

Quanto à representação social do climatério historicamente a construção da natureza feminina inclui o instinto maternal como algo inerente ao papel da mulher como reprodutora.

 

O amor materno foi por tanto tempo concebido em termos de instintos, que acreditamos facilmente que tal comportamento faça parte da natureza da mulher.

 

A formação da família nuclear moderna teve início no final do século XVIII onde o casamento por amor transformou a esposa em companheira eleita.

 

Este ato de escolha trouxe uma nova qualidade ao casamento, pois se o amor é a base da união, os filhos gerados serão vistos como uma realização do amor do casal (Badinter,1985).

 

Nesta conformidade familiar, os pais estariam implicados na manutenção e preservação da vida dos filhos; ficando protegida da intrusão da sociedade, através da construção de um espaço privado.

 

Isto ocorre com o desenvolvimento do capitalismo e com a noção da propriedade privada que possibilita a herança dos bens pelos familiares.

 

Este novo contexto social do início do século XVIX colocou para as mulheres a tarefa de esposa e mãe, daí a figura da mulher como a "rainha do lar" que era incentivada a deixar fluir, com toda intensidade, sua natureza feminina e seu instinto maternal em benefício dos cuidados da prole (Kehl, 1998).

 

Cada sociedade funciona através de um regime de verdades próprias traduzidas em discursos, adotados como expressões genuínas e que passam a estar engendradas no sistema social como verdades absolutas.

 

Assim, os padrões de beleza e juventude constituiriam a regra social, onde os atores sociais querem estar inseridos (Foucault, 1999).

 

Desta forma, muitas mulheres tentam enquadra-se a qualquer custo nos padrões estéticos vigentes. Esta preocupação com a estética reflete-se nos avanços da medicina, principalmente os relacionados à cosmetologia e as cirurgias plásticas, que prometem verdadeiros milagres para estancar o tempo (Esper & Kahale, 2005).

 

Deve-se atentar também para as diferenças de cultura, assim em contraposição com representações diferentes da cultura ocidental a China e o Japão onde há veneração e respeito em relação à velhice e as mulheres, não há referência sobre sintomatologia específica para esta fase da vida (Aren, 2003).

 

Nas sociedades dos índios Mohave, onde as mulheres nesta fase não restringem sua vida sexual, o período do climatério não é visto como traumático ou deprimente, novos casamentos são freqüentes e as mulheres são valorizadas por suas experiências (Bennedek, 1951).

 

Quanto aos aspectos psicológicos, observa-se mudança no pensamento de Freud para Laznik, fruto do aumento da expectativa de vida da mulher e da expressão feminina na psicologia. Esper (2005) faz análise da mulher na contemporaneidade; assim com a aproximação do climatério, acontecimentos como o início da emancipação dos filhos e a impossibilidade da gravidez, levariam a mulher a procurar outros objetivos, pois as forças egoicas estão mobilizadas para um ajustamento a nova realidade.

 

Através de mecanismos sublimatórios poderão transferir a energia gasta nos processos de maturação biológica para outros alvos socializados, assim o aumento da produtividade da mulher após o climatério seria o reflexo de uma melhor saúde, física e emocional, induzindo a considerar o climatério sob o ponto de vista psicológico, como sendo uma fase do desenvolvimento.

 

O significado psicológico da menopausa é representado pelos sentimentos de perda da fertilidade e feminilidade, pelas mudanças na sexualidade, pelos questionamentos sobre o processo de transição, tais como as irregularidades menstruais, o desconhecimento sobre a duração dos sintomas, as mudanças de atribuições e o aumento da incidência das doenças crônicas e a constatação do envelhecimento.

 

Em relação à perda da capacidade reprodutora, deve-se considerar que a mulher não está somente integrada na esfera biológica, mas que também vive situada dentro de um mundo e de um meio social, e disto tem consciência.

 

A cada instante de sua vida, constrói e limita sua personalidade. Não quer desaparecer socialmente. Sentir-se sem capacidade reprodutiva, isto é ser alguém que não conta, que não pode reproduzir mais, equivale à perda da existência pessoal e social. É o momento que se deverá estabelecer uma integração dos conteúdos psíquicos que formam as diferentes imagens da personalidade.

 

Somente a "reconstrução" do Ego consciente a tornará capaz de resolver positivamente seus conflitos emocionais. Este processo desenvolver-se-á principalmente graças a experiências emocionais novas e favoráveis que ela realizará nas situações ordinárias de vida. Nestas circunstâncias concretas, desenvolverá outras atitudes e, graças a isto, irá adquirir igualmente, uma nova experiência de si mesma.

 

O acompanhamento por equipe multiprofissional dará a ela mais segurança, esclarecimento e tranqüilidade. A vida pode ser bem diferente após o trabalho psíquico de uma crise emocional e diferente não significa pior. Muitas mulheres emergem desta condição mais fortes do que eram antes, com novo sentido de vida e novos objetivos. Independentemente do tipo de tratamento que seguirão um sólido e saudável relacionamento com o profissional ou profissionais de saúde a ajudará a restaurar sua saúde física e mental.

Referências Bibliográficas disponíveis com a autora
.

 

Considerações sobre Aspectos Psicossociais da Perda da Capacidade Reprodutiva no Climatério

 

Sônia Maria Rolim Rosa Lima

Professora Assistente do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia

Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Delegada SOBRAGE São Paulo

 

Climatério é o período de vida da mulher em que ocorre a perda da capacidade reprodutora natural; é a passagem do período reprodutivo para o não reprodutivo. Trata-se de fase de transição marcada por alterações hormonais e emocionais. Entende-se por menopausa a data do último fluxo menstrual, porém seu diagnóstico é retrospectivo, isto é, só firmado após ter transcorrido um ano do referido evento.

 

Nós acreditamos ser o período do climatério uma fase de evolução onde o organismo feminino, até então, mais direcionado a gerar vida, dirigi-se livremente a outros fins, possibilitando que ela desenvolva todas suas potencialidades.

 

A mulher apresenta períodos marcantes em sua vida; a primeira menstruação, a primeira gestação e a última menstruação com conseqüente perda da capacidade reprodutora.

 

A maioria passa naturalmente por todas as fases somente sendo opcional a gestação, porém tal decisão não é fácil, podendo ser acompanhada de importantes questionamentos e conflitos.

 

A perda da capacidade reprodutiva, como qualquer período de crise pode causar forte impacto emocional, com notáveis repercussões psíquicas.

 

Além das alterações decorrentes da carência hormonal com efeitos orgânicos significativos, a mulher está inserida em uma sociedade com suas normas e valores com influência direta em seu psiquismo, podendo levar também a forte impacto em sua qualidade de vida.

 

As alterações psíquicas, próprias de períodos de crise, possuem características estritamente pessoais e afloram com intensidade e duração variáveis a depender da capacidade de adaptação e solução de problemas.

 

Quanto à representação social do climatério historicamente a construção da natureza feminina inclui o instinto maternal como algo inerente ao papel da mulher como reprodutora. O amor materno foi por tanto tempo concebido em termos de instintos, que acreditamos facilmente que tal comportamento faça parte da natureza da mulher.

 

A formação da família nuclear moderna teve início no final do século XVIII onde o casamento por amor transformou a esposa em companheira eleita. Este ato de escolha trouxe uma nova qualidade ao casamento, pois se o amor é a base da união, os filhos gerados serão vistos como uma realização do amor do casal (Badinter,1985).

 

Nesta conformidade familiar, os pais estariam implicados na manutenção e preservação da vida dos filhos; ficando protegida da intrusão da sociedade, através da construção de um espaço privado. Isto ocorre com o desenvolvimento do capitalismo e com a noção da propriedade privada que possibilita a herança dos bens pelos familiares.

 

Este novo contexto social do início do século XVIX colocou para as mulheres a tarefa de esposa e mãe, daí a figura da mulher como a "rainha do lar" que era incentivada a deixar fluir, com toda intensidade, sua natureza feminina e seu instinto maternal em benefício dos cuidados da prole (Kehl, 1998).

 

Cada sociedade funciona através de um regime de verdades próprias traduzidas em discursos, adotados como expressões genuínas e que passam a estar engendradas no sistema social como verdades absolutas. Assim, os padrões de beleza e juventude constituiriam a regra social, onde os atores sociais querem estar inseridos (Foucault, 1999).

 

Desta forma, muitas mulheres tentam enquadra-se a qualquer custo nos padrões estéticos vigentes. Esta preocupação com a estética reflete-se nos avanços da medicina, principalmente os relacionados à cosmetologia e as cirurgias plásticas, que prometem verdadeiros milagres para estancar o tempo (Esper & Kahale, 2005).

 

Deve-se atentar também para as diferenças de cultura, assim em contraposição com representações diferentes da cultura ocidental a China e o Japão onde há veneração e respeito em relação à velhice e as mulheres, não há referência sobre sintomatologia específica para esta fase da vida (Aren, 2003). Nas sociedades dos índios Mohave, onde as mulheres nesta fase não restringem sua vida sexual, o período do climatério não é visto como traumático ou deprimente, novos casamentos são freqüentes e as mulheres são valorizadas por suas experiências (Bennedek, 1951).

 

Quanto aos aspectos psicológicos, observa-se mudança no pensamento de Freud para Laznik, fruto do aumento da expectativa de vida da mulher e da expressão feminina na psicologia. Esper (2005) faz análise da mulher na contemporaneidade; assim com a aproximação do climatério, acontecimentos como o início da emancipação dos filhos e a impossibilidade da gravidez, levariam a mulher a procurar outros objetivos, pois as forças egoicas estão mobilizadas para um ajustamento a nova realidade.

 

Através de mecanismos sublimatórios poderão transferir a energia gasta nos processos de maturação biológica para outros alvos socializados, assim o aumento da produtividade da mulher após o climatério seria o reflexo de uma melhor saúde, física e emocional, induzindo a considerar o climatério sob o ponto de vista psicológico, como sendo uma fase do desenvolvimento.

 

O significado psicológico da menopausa é representado pelos sentimentos de perda da fertilidade e feminilidade, pelas mudanças na sexualidade, pelos questionamentos sobre o processo de transição, tais como as irregularidades menstruais, o desconhecimento sobre a duração dos sintomas, as mudanças de atribuições e o aumento da incidência das doenças crônicas e a constatação do envelhecimento.

 

Em relação à perda da capacidade reprodutora, deve-se considerar que a mulher não está somente integrada na esfera biológica, mas que também vive situada dentro de um mundo e de um meio social, e disto tem consciência.

 

A cada instante de sua vida, constrói e limita sua personalidade. Não quer desaparecer socialmente. Sentir-se sem capacidade reprodutiva, isto é ser alguém que não conta, que não pode reproduzir mais, equivale à perda da existência pessoal e social. É o momento que se deverá estabelecer uma integração dos conteúdos psíquicos que formam as diferentes imagens da personalidade.

 

Somente a "reconstrução" do Ego consciente a tornará capaz de resolver positivamente seus conflitos emocionais. Este processo desenvolver-se-á principalmente graças a experiências emocionais novas e favoráveis que ela realizará nas situações ordinárias de vida. Nestas circunstâncias concretas, desenvolverá outras atitudes e, graças a isto, irá adquirir igualmente, uma nova experiência de si mesma.

 

O acompanhamento por equipe multiprofissional dará a ela mais segurança, esclarecimento e tranqüilidade. A vida pode ser bem diferente após o trabalho psíquico de uma crise emocional e diferente não significa pior. Muitas mulheres emergem desta condição mais fortes do que eram antes, com novo sentido de vida e novos objetivos. Independentemente do tipo de tratamento que seguirão um sólido e saudável relacionamento com o profissional ou profissionais de saúde a ajudará a restaurar sua saúde física e mental.

Referências Bibliográficas disponíveis com a autora



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