Reposição hormonal em pacientes já tratadas por câncer de mama
Marcelino E. H. Poli
Delegado, SOBRAGE, Rio Grande do Sul
O câncer de mama tratado tem sido considerado contra-indicação para reposição hormonal e isso tem sido corroborado pelo Physicians’ Desk Reference. Os resultados do WHI, apesar de subseqüentes, tenham trazidos modificações ao entendimento do artigo original, tem servido de suporte para essa contra-indicação. O assunto é controverso porque, na literatura, faltam dados para substanciar a determinação do Physicians’ Desk Reference.
William Creasman do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Medical University of South Carolina, Charleston, South Carolina, USA, em recente artigo1, traz à consideração vários artigos com dados que se contrapõem a essa contra-indicação.
Há, no mínimo, seis estudos prospectivos, randomizados, comparando o tamoxifeno com o estrogênio em pacientes pós-menopausadas com câncer avançado de mama. Todos os estudos demonstram que as taxas de resposta e duração entre tamoxifeno e estrogênio são similares.
Em três estudos, contudo, as mulheres que tomaram estrogênio, tiveram uma sobrevida significativamente mais longa do que as que tomaram tamoxifeno, sendo que em uma delas a diferença foi de 13,5 meses.
Cerca de doze estudos avaliaram os progestagênios no tratamento de câncer metastático de mama e os resultados foram equivalentes aos obtidos com tamoxifeno.
O estrogênio, quando usado como adjuvante, deu respostas semelhantes às do tamoxifeno, melhor do que o placebo, relativamente ao tempo livre de doença progressiva.
Lembra que há não muito tempo, antes de se conhecer que os tumores poderiam ser positivos ou negativos para receptores de estrogênio, se uma paciente pós-menopausada tivesse câncer avançado de mama ou tivesse recorrência, o estrogênio era o tratamento de primeira linha e as respostas eram, em muitas delas, favoráveis.
Em vários estudos retrospectivos, a TRH foi usada após a ocorrência do câncer de mama, para alívio de sintomas vasomotores. Os resultados revelaram taxas muito baixas de recorrência ou morte.
Em vários estudos caso-controlado a recorrência e a morte em pacientes com câncer de mama usando TRH, após o diagnóstico, não foi diferente das que não usaram estrogênio.
Em um estudo de coorte, DiSaia e colaboradores parearam 125 pacientes que receberam TRH após o diagnóstico de câncer de mama, com 362 pacientes controles.
Cerca de ¾ das pacientes usaram estrogênio mais progestogênio.
O risco de morte foi consideravelmente menor nas usuárias de estrogênio do que nas não usuárias (OR de 0,28 CI=0,11-0,71; P=0,01).
Outro estudo, conduzido por O’Meara, em que 2755 mulheres com câncer de mama foram avaliadas e destas, 173 foram selecionadas para o estudo, por fazerem uso de TER/TRH.
Cada uma destas foi pareada com 4 controles. Ambos os regimes, somente estrogênio e estrogênio mais progestogênio, foram usados.
O número de recorrências entre as usuárias de hormônios foi 16 (9%), enquanto o número de recorrências entre as não usuárias foi 101 (15%).
As taxas de recorrência foram de 17 por 1000 e de 30 por 1000 mulheres-ano em usuárias e não usuárias, respectivamente.
Essas taxas, ajustadas para múltiplos fatores, levaram ao RR de 0,50 (CI= 0,30-0,85). Cinco das usuárias (3%) e 59 não usuárias (8%) morreram da doença, o que representa um RR de 0,34 (CI= 0,13-0,91). A mortalidade total revelou um RR ajustado de 0,48 (CI = 0,29-0,78).
Outros estudos, relatados pelo autor, revelaram resultados que apontam no mesmo sentido.
Somente um estudo, o HABITS (Hormonal Replacement Therapy After Breast Cancer- Is It Safe?) foi discrepante e revelou resultados opostos.
Entretanto, esse estudo mostrou-se repleto de falhas metodológicas, o que compromete os seus resultados.
Assim, Creasman conclui que, com exceção do HABITS, todos os outros estudos não identificam efeitos deletérios na reposição hormonal em pacientes pós câncer de mama.