Planejamento familiar reduz violência na Bahia

Elsimar Coutinho

Presidente, Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH),
Ex-Presidente e atual Tesoureiro, Sociedade Brasileira de Ginecologia Endócrina (SOBRAGE)

O Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH) foi fundado há vinte anos para dar seqüência à assistência social na área do planejamento familiar e da saúde reprodutiva na cidade do Salvador, função preenchida até então e desde os anos 70 pela Maternidade Climério de Oliveira.

O atendimento no hospital-escola era bastante limitado porque os professores e médicos que ali militavam tinham no ensino e na pesquisa as suas principais atribuições.

O CEPARH veio preencher essa lacuna e para fugir das greves freqüentes e longas que impediam uma assistência médico-social ininterrupta aos usuários foi estruturado como instituição filantrópica sem fins lucrativos, o que nos livraria como livrou a um só tempo dos dois maiores inimigos da iniciativa que eram os impostos e as greves.

Na época da sua desvinculação física da Maternidade Climério de Oliveira, o CEPARH em 1981 juntou-se a outros grupos que atuavam em outros estados, formando uma associação que chegou a ter 123 centros de assistência na área do planejamento familiar (ABEPF) da qual fui inicialmente vice-presidente e depois presidente.

Em virtude principalmente de dificuldades financeiras resultantes da falta de apoio do Governo Federal e de particulares e da conseqüente falta de motivação dos associados, a ABEPF atuou como promotora e executora de programas de planejamento familiar por alguns anos e depois encerrou a sua atuação.

Para não fechar as portas, o CEPARH passou a gerar seus próprios recursos oferecendo serviços de primeira classe na área da Medicina Reprodutiva aos convênios médicos e a particulares que podiam pagá-los. Deste modo, infelizmente para o Brasil e felizmente para a Bahia, os últimos vinte anos de atividade do CEPARH contribuíram para que a vida daqueles que aqui vivem fosse bem melhor do que na maioria dos outros estados

De acordo com a pesquisa realizada pelo sociólogo argentino radicado no Brasil, Júlio Jacobo Waiselfisz, e publicada pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OEI) recentemente, a Bahia foi o estado no qual a violência resultando em morte de jovens diminuiu mais no Brasil nos últimos dez anos.

O estudo intitulado “Mapa da Violência 2006 – Os Jovens do Brasil” revela que a taxa de homicídio na Bahia caiu de modo dramático nesse período, passando a Bahia do 14º para o 22º lugar.

Um pouco melhor só estão 5 estados, todos com população muito pequena como Tocantins, Piauí, Rio Grande do Norte, Maranhão e Santa Catarina. Nos demais estados a violência, predominantemente de jovens contra jovens, é até três vezes superior à da Bahia. Segundo o autor os dados mais surpreendentes se referem à cidade do Salvador que entre as capitais saiu do 6º lugar em 1994 para o 19º lugar.

Os campeões da violência são o Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo e Brasília, seguidos de Amapá, Alagoas, Paraná, Rondônia e São Paulo. Minas Gerais está em 12º, o Rio Grande do Sul em 15º e o nosso vizinho Sergipe em 18º.

O autor não tem explicação para a extraordinária virada da Bahia e, sobretudo da cidade do Salvador, um fato que só tem precedente em fenômeno semelhante que ocorreu em Nova York cuja criminalidade começou a cair drasticamente quinze anos depois da legalização do aborto.

Os analistas da OEI provavelmente desconhecem o que foi feito na Bahia nos últimos vinte anos de ação do Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH). Aqui não foi necessária a legalização do aborto, mas em compensação houve uma vigorosa doutrinação da população no sentido de evitar a gravidez indesejada através do planejamento familiar iniciada por nos há mais de 20 anos atrás e que dura até hoje.

Em janeiro de 1995, em artigo intitulado “Interiorização do Planejamento Familiar”, publicado na imprensa local e reproduzido no meu livro “O Descontrole da Natalidade” no Brasil eu dava conta do que tínhamos feito então para promover a prática do planejamento familiar sem apoio oficial.

Visitamos todo interior do estado, pregando o uso de métodos anticoncepcionais e desmistificando tudo de negativo que diziam os opositores nos mais importantes municípios de um extremo a outro do Estado.

De Mucuri no extremo sul a Rio Real no norte, do Recôncavo todo até Barreiras.

Inauguramos uma unidade do CEPARH em Feira de Santana com a colaboração da Prefeitura e dos empresários que ajudaram a construir o CEPARH-Feira e que vem funcionando desde então sob a direção do Dr. Marcelo Esteve.

Outras unidades fizeram o trabalho de implantação em Vitória da Conquista e Jequié. Algumas cidades foram visitadas repetidamente como Cruz das Almas, Santo Antonio de Jesus, Itabuna, Ilhéus, Paulo Afonso, Cachoeira, Santo Amaro, Riachão do Jacuípe, Serrinha, Jacobina e Porto Seguro. O importante mesmo foi a desmistificação da prática da contracepção até então condenada pela Igreja e pela esquerda radical.

Apesar da indiferença do Governo Federal pelo planejamento familiar, os sucessivos governadores do Estado colaboraram no que achavam que podiam através das Secretarias de Saúde depois que o caminho foi aberto pela intensiva pregação que fizemos.

Em Salvador contamos com o apoio de alguns deputados e vereadores com especial destaque para o vereador Pedro Godinho que fez do planejamento familiar sua bandeira e promoveu o engajamento da Câmara de Vereadores de Salvador.

A Prefeitura de Salvador, particularmente na administração Imbassahy, também ajudou, doando ao CEPARH um veículo, o CEPARH-móvel, que atende a periferia da cidade.

Ao longo dos últimos vinte anos o CEPARH, através do seu trabalho assistencial, usando métodos eficientes de contracepção, a maior parte desenvolvidos na própria Bahia, evitou a ocorrência de mais de 1 milhão de gravidezes indesejadas que contribuiriam para mudar as estatísticas de mortalidade materna e infantil, do aborto e do abandono das crianças que sem a proteção e assistência da família disputam a sua sobrevivência através da violência.

Há mais de vinte anos que tentamos apontar a redução da violência como uma das mais importantes conseqüências desejáveis do planejamento familiar.

Aí está! Só lamento que Eric Loeff, o holandês voador que destinou a maior parte da sua fortuna à construção do CEPARH, não esteja vivo para saborear este momento em que colhemos os primeiros frutos da perseverança do nosso trabalho com os números frios que demonstram de maneira irrefutável os benefícios que o planejamento familiar está trazendo para a Bahia.


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