O Papel das Sociedades Médicas
A nova diretoria da SOBRAGE assume a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho da diretoria anterior presidida por Rui Ferriani em um momento difícil para os médicos brasileiros, particularmente os ginecologistas e endocrinologistas confrontados com os estudos sobre os efeitos adversos da reposição hormonal divulgados pela mídia com grande estalhardaço.
Os resultados que mais assustaram as usuárias da reposição hormonal foram aqueles relacionados com o aumento na incidência do câncer de mama, a patologia mais temida pelas mulheres. O aumento de risco cardiovascular relatado simultaneamente contribuiu para assustar mais aos cardiologistas do que as usuárias mas pesou negativamente na avaliação da reposição hormonal pelo público em geral. Os benefícios conhecidos e confirmados nos estudos, tanto na prevenção da osteoporose como na diminuição do câncer de intestino, foram desenfatizados pela mídia do mesmo modo que a extraordinária melhoria na qualidade de vida e na auto-estima que a reposição hormonal proporciona.
As críticas tanto ao estudo do WHI (Women's Health Initiative) quanto ao MWS (Million Women Study) já começaram a sair nas revistas médicas e este ano os defensores da reposição hormonal terão a oportunidade de se manifestar analisando os achados publicados. A nova diretoria da SOBRAGE, consciente do papel educativo das sociedades médicas e reconhecendo a nossa responsabilidade de pesar cada nova revelação na área da ginecologia endócrina antes de nega-la ou apóia-la se propõe a criar espaços para que os seus associados possam se manifestar livremente contribuindo assim para orientar os colegas.
Uma análise preliminar dos referidos estudos clínicos apresenta a associação da medroxiprogesterona (MPA) com os estrogênios conjugados aquela que contribue mais claramente para o temido aumento de 20% na incidência de câncer de mama. Os estrogênios conjugados sem a MPA não provocam aumento na incidência do câncer de mama, entretanto parecem aumentar o risco de acidente vascular cerebral após uso contínuo por dez anos. Em compensação em um estudo recente publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism em dezembro 2003 (88[12]:5611-14), Firas Akhrass e colaboradores avaliaram 2.213 mulheres medindo calcificação arterial e concluíram que a reposição hormonal está associada com menos aterosclerose coronária.
Contradições como esta não poderiam deixar de aparecer em estudos clínicos como o WHI e o MWS envolvendo pacientes com idades variando de pouco mais de 40 anos até mais de 70, portadores de patologias múltiplas. Nos cabe trabalhar para esclarecer, analisando friamente os dados disponíveis na literatura para tranqüilizar tanto as pacientes quanto seus médicos.