Poli Mara Spritzer
Unidade de Endocrinologia Ginecológica, Serviço de Endocrinologia, Hospital de Clínicas de Porto Alegre e Departamento de Fisiologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Síndrome dos ovários policísticos (PCOS) HCPA/UFRGS.
A Síndrome dos ovários policísticos (PCOS ou SOP) é a endocrinopatia mais freqüente em mulheres em idade reprodutiva, com uma prevalência em torno de 4 a 10% em diferentes populações. Sua etiologia ainda não está bem definida, mas a ocorrência de um padrão familiar sugere um componente genético da doença, possivelmente de herança autossômica dominante. Além disso, fatores adquiridos e ambientais, relacionados com o estilo de vida podem ter influência sobre o desenvolvimento da síndrome. A PCOS caracteriza-se por anovulação crônica e hiperandrogenismo e se manifesta, na maioria dos casos pela presença de hirsutismo, oligo/amenorréia e infertilidade. Os sintomas iniciam no período peripuberal e progridem com o tempo, embora possam se iniciar mais cedo, com um quadro de pubarca precoce (aparecimento precoce de pelos pubianos de forma isolada, sem outros sinais de puberdade).
Além dos distúrbios reprodutivos, as pacientes com PCOS, independente de seu peso, apresentam, frequentemente, alterações metabólicas e maior risco para desenvolver tolerância diminuída à glicose e diabete melito tipo 2. Adicionalmente, um número expressivo de pacientes apresenta obesidade (60-70%) e, nestes casos, estas alterações metabólicas podem ter maior impacto clínico, incluindo uma maior prevalência de hipertensão arterial. Isto é verdadeiro, especialmente quando a obesidade apresenta distribuição central, que sinaliza para a presença de resistência insulínica.
A obesidade central (e em pacientes de peso normal, a distribuição central da adiposidade), pode ser identificada através da medida da circunferência da cintura, conforme recomendado pelo National Cholesterol Education Program/Adult Treatment Panel III (NCEP/ATPIII). Esta medida é realizada com uma fita graduada em cm, inextensível, com a paciente em pé, pernas ligeiramente afastadas e aplicada à menor circunferência abdominal ou transversalmente na região à meia-distância entre o rebordo costal e a crista ilíaca. Demonstramos, em estudo recentemente publicado, que em pacientes com PCOS ou hirsutismo isolado, uma medida simples da circunferência da cintura tem excelente correlação com a avaliação de composição corporal por absortometria radiológica de dupla energia (DXA), um método de imagem validado (e caro!) para estimar a adiposidade central (figura 1). Considera-se como normal para a mulher uma circunferência menor do que 88 cm, mas evidências vêm indicando que este valor deve ser reduzido para 80 cm, e isto vale também para a população feminina brasileira.
Mulheres que desenvolvem PCOS apresentam uma maior prevalência de dislipidemia, hipertensão, diabete e marcadores precoces de aterosclerose, quando comparadas com mulheres sem PCOS, de mesma idade e IMC (índice de massa corporal). No entanto, embora o fator central, comum a estes distúrbios, seja a resistência insulínica e que esta possa ocorrer independente do IMC, é interessante constatar que estas alterações se manifestam preponderantemente nas pacientes com sobrepeso ou obesidade.
Assim, a resistência insulínica é considerada um fator de risco cardiovascular independente e tem um papel chave no desenvolvimento da Síndrome Metabólica, um conjunto de fatores de risco cardiovascular que se apresentam associados. A definição de Síndrome Metabólica, pelo NCEP/ATPIII, inclui a presença de pelo menos três dos seguintes critérios (em mulheres): hipertensão arterial (³130 /85 mmHg), obesidade central (circunferência da cintura ³ 88cm) , hiperglicemia (³ 110 mg/dl), HDL-colesterol baixo (<50 mg/dl) e triglicerídeos elevados (TG >150 mg/dl). A International Diabetes Federation, por outro lado, indica que o ponto de corte para glicemia seja de 100 mg/dl.
A avaliação da presença dos componentes da Síndrome Metabólica em pacientes com PCOS pode, portanto, identificar um subgrupo de mulheres para as quais medidas de prevenção primária e secundária para comorbidades metabólicas e cardiovasculares devam ser instituídas, sem demora. Esta avaliação, como já referido, é simples, dependendo apenas da anamnese, exame físico (pressão arterial, cintura, peso e altura para cálculo do IMC) e dosagens bioquímicas de glicemia e lipídios.
Com o intuito de analisar estas relações entre resistência insulínica, Síndrome Metabólica e IMC, nosso grupo estudou uma população de 91 mulheres entre 14 e 35 anos que consultaram por hirsutismo na Unidade de Endocrinologia Ginecológica/ Serviço de Endocrinologia do HCPA, Rio Grande do Sul. Observamos uma prevalência de 68,8% de resistência insulínica, mas de apenas 27% de Síndrome Metabólica nas pacientes com PCOS. Um aspecto no estudo chamou a atenção: nenhuma das pacientes com IMC normal (<25) preenchia os critérios para Síndrome Metabólica, embora 45% tivessem resistência insulínica.
Em conclusão, 1) PCOS está associado com maior prevalência de fatores de risco cardiovascular e de comorbidades metabólicas; 2) Rastreamento de pacientes em risco nesta população de mulheres jovens é simples e de baixo custo; 3) Nas pacientes com PCOS, identificadas como apresentando os riscos descritos no ítem 1, mudanças no estilo de vida (dieta e exercícios) e, se necessário, medidas farmacológicas devem ser instituídas com o objetivo de se obter redução de peso, redistribuiução da adiposidade e tratamento específico da hipertensão e diabete.
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Correspondência: Poli Mara Spritzer: spritzer@ufrgs.br .
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