Estilo de vida e longevidade
Hans Wolfgang Halbe*
Donaldo Cerci da Cunha**
* Livre-docente em Ginecologia e Obstetrícia, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor Honoris Causa, Faculdade de Medicina de Marília, São Paulo, autarquia da Secretaria de Ensino Superior do Estado de São Paulo.
**Chefe de Disciplina de Ginecologia e Obstetrícia, Faculdade de Medicina de Marília, São Paulo, autarquia da Secretaria de Ensino Superior do Estado de São Paulo.
A medicina preventiva contribui para prolongar a vida da população retardando o seu envelhecimento, a deterioração orgânica e funcional progressiva de células e tecidos associada com a idade, responsável pelo aumento do risco de doença e morte, e que pode ser acelerada pelas doenças crônico-degenerativas e pelo estresse oxidativo devido às espécies reativas de oxigênio ou nitrogênio produzidas pelo metabolismo celular. 1 A vivência acima de 100 anos é um evento raro, uma curiosidade biológica, ainda pouco compreendido e às vezes assustador. 2, 3 Graças às semelhanças biológicas ao completar 85 anos de idade os indivíduos são considerados centenários. 4 O Censo brasileiro de 2007 incluindo 5435 municípios mostra que o número de pessoas que completaram 100 anos de idade é 11422; deste total, 7950 são mulheres e 3472 homens. 5 Neste artigo abordam-se alguns aspectos que interferem de modo positivo ou negativo na longevidade e ressalta-se a importância de orientar a relação médico-paciente no sentido de aprimorar o estilo de vida.
Os fatores determinantes da longevidade são três: acaso, hereditariedade e estilo de vida. O estilo de vida é o modo como vive uma pessoa compreendendo hábitos ou comportamentos particulares relativos à maneira de ser em termos sociais, de consumo, divertimento, e vestuário, espelhando as suas atitudes, os seus valores e a sua visão do ambiente. 6 Apesar da influência ambiental, os indivíduos acabam por determinar o próprio estilo de vida. Desde que tenham hábitos saudáveis e evitem condutas de risco conseguem escapar da estatística mórbida do acaso, embora continuem sujeitas a sua natureza aleatória. Existe o consenso que a melhoria da saúde não se deve somente ao progresso da medicina ou à mudança ambiental, mas à prática individual de comportamentos saudáveis. 7
Quanto à influência da hereditariedade vale a frase: a hereditariedade carrega a arma, mas o gatilho é acionado pelo estilo de vida. 8 A mudança do estilo de vida para melhor é um evento mais emocional que cognitivo. Por exemplo, no caso do tabagismo o conhecimento de sua nocividade não basta para levar à abstenção. É necessário surgir a repulsa (sentimento negativo) ao fumo. Também fazem parte do estilo de vida a alimentação adequada, a atividade física regular e a aquiescência aos tratamentos médicos. 9
Mesmo quando iniciada a partir da meia idade os efeitos positivos da mudança de hábitos relacionados à saúde são notáveis. Por exemplo, abstenção do fumo, controle de peso, controle da pressão arterial e exercícios físicos regulares se traduzem pela maior higidez e aumento da vivência. A análise do estado funcional e dos fatores mutáveis associados com a vivência mínima de 90 anos de idade em uma população de 2357 homens sadios (média etária 72 anos) demonstra a sobrevivência de 970 homens (41%) até os 90 anos de idade. Os principais fatores de risco de morte estão listados na Tabela 1. A prática de exercício regular diminui o índice de azar para 0,72 (intervalo de confiança 95% = 0,62 - 0,83). 10
Tabela 1
Fatores de risco responsabilizados pelo falecimento antes dos 90 anos de 1387 homens sadios e influência do exercício regular no risco de morte (adaptado de Yates et al.10).
Fatores de risco |
Hazard ratio * |
Intervalo de confiança 95% |
Tabagismo |
2,10 |
1,75 - 2,51 |
Diabetes melito tipo 2 |
1,86 |
1,52 - 2,26 |
Obesidade |
1,44 |
1,10 - 1,90 |
Hipertensão arterial |
1,28 |
1,15 - 1,43 |
* O hazard ratio (índice de azar) corresponde praticamente ao risco relativo. 11
Os termos sobrevivência excepcional e o envelhecimento bem sucedido têm significados diferentes. O envelhecimento bem sucedido é a ausência de doença e incapacidade, manutenção da habilidade física e cognitiva, com preservação da atividade social e produtiva. A sobrevivência excepcional é a vivência mínima até os 75 anos de idade sem as principais doenças crônicas e os fatores incapacitantes de natureza física e mental. Assim, o estudo de 5820 indivíduos (média etária 54 anos; limites = 45-68 anos) seguidos durante 40 anos para avaliar a sobrevivência, mostra que 42% sobrevivem até os 85 anos de idade, mas apenas 11% preenchem os critérios de sobrevivência excepcional. Nível educacional elevado e a presença de parceiro marital aumentam a probabilidade da vivência além dos 85 anos de idade. 4
Alem disto, o estudo de 602 centenários divididos em três grupos de acordo com o estado de saúde (Bom 20,0%; Intermediário 33,4%; e Ruim 6,6%) revela que o grupo Bom caracterizado pela ausência de doenças crônicas incapacitantes, é independente em relação às atividades diárias, tem boa capacidade física e cognitiva, mas não exerce qualquer atividade social ou produtiva. Portanto, os centenários do grupo Bom, apesar de seus atributos positivos, pelo fato de não manter qualquer atividade social ou produtiva, não podem ser considerados protótipos do envelhecimento bem sucedido. 12 Este estudo é muito importante porque o ser humano deve ser útil para a sociedade em termos de atividades sociais ou produtivas, caso contrário torna-se um peso. Na ausência destas últimas qualidades, o grupo Bom que em média abrange 35,8% dos idosos (os limites variam amplamente entre os estudos) e em geral, independe de sexo, proventos, educação e estado marital, não pode ser qualificado de envelhecimento bem sucedido, mas apenas de sobrevivência excepcional. 13
Em geral, os efeitos do declínio cognitivo não são notados antes dos 70 anos de idade e envolvem as capacidades intelectuais: a atenção, os processos de elaboração e de memória. O estudo de 346 centenários de 100-109 anos de idade mostra que 187 (54,1%) continuam com um escore mental normal. 14
A longevidade é familiar. Pais e gêmeos de centenários têm uma sobrevida acima da média etária de indivíduos nascidos na mesma época. 15 Além disto, os filhos de centenários têm uma vivência maior em comparação com indivíduos da mesma idade cujos pais faleceram dentro da média de esperança de vida da população geral. Alem de apresentar menor prevalência de doença cardíaca coronariana, hipertensão arterial e diabetes melito tipo 2, os filhos de centenários têm um retardo etário no início destas doenças indicando que a ausência ou demora no estabelecimento de doenças favorecem a longevidade. 16 Portanto, os mecanismos de sobrevivência dos longevos constituem-se da postergação da morbidade e postergação da incapacidade, sendo freqüente a associação entre os dois mecanismos. Quase um terço dos centenários apresenta morbidade relacionada à idade por 15 anos ou mais; este grupo recorre à postergação da incapacidade como mecanismo de longevidade. 17 Esta postergação é benéfica porque a atividade física diminui o risco de morte.
Em geral, a função cognitiva e física dos sobreviventes masculinos apesar de em inferioridade numérica apresentam melhor qualidade que os femininos. Por exemplo, considerando o índice de Barthel cujo máximo é 100 (limites de independência 80-100), os homens com hipertensão arterial ou doença cardíaca com duração de 15 anos ou mais têm a mediana do índice igual a 90. Já as mulheres com hipertensão arterial, doença cardíaca ou osteoporose, a mediana é 65 (limites de assistência mínima 60-79). 17 No índice de Barthel um paciente com índice = 100 é continente, alimenta-se, veste-se, levanta da cama ou dos assentos, banha-se, anda pelo menos uma quadra e pode subir e descer escadas sem ajuda; pode não ser capaz de viver sozinho: não cozinha nem arruma a casa e não tem interesse de estabelecer relacionamentos sociais, mas de resto é auto-suficiente. 18 Um estudo de 32 supercentenários (idade de 110-119 anos) revela que 59% apresentam o índice de Barthel nos limites da dependência e 41% da independência ou necessitados de assistência mínima. 19
A restrição alimentar prolongada sem desnutrição tem sido utilizada para o estudo experimental da longevidade porque modifica a expressão de numerosos genes com desaceleração do metabolismo e a produção de vários efeitos biológicos notadamente o retardo de crescimento e a diminuição da fertilidade. Esta modalidade de restrição calórica prolonga a vida de roedores e outras espécies de vivência curta havendo indícios que o mesmo possa acontecer em espécies de vivência mais longa. Os principais mecanismos que podem explicar o aumento da vivência são a diminuição da produção das espécies de oxigênio reativo e, conseqüentemente, do estresse oxidativo. 20 O estresse oxidativo não é uma doença em si, mas uma condição que pode acarretar ou acelerar a evolução de uma doença quando a disponibilidade de antioxidantes endógenos é insuficiente para neutralizar as espécies reativas, resultando no dano celular que pode levar a mutações, perda tissular e comprometimento imune. 21 Outro mecanismo aventado para o aumento da vivência é a diminuição da sinalização da insulina/IGF1. 20
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