Em meados de 1986, recém saído da Residência Médica do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, fui trabalhar como Coordenador de Projetos Cirúrgicos da ABEPF – Associação Brasileira de Entidades de Planejamento Familiar, presidida por Elsimar Coutinho, tendo como 1º vice-presidente Ronald Bossemeyer.
Durante o IV Congresso Brasileiro de Ginecologia Endócrina, ocorrido em Salvador, no período de 06 a 08 de abril de 2006, mais de mil colegas inscritos puderam assistir um momento de muita emoção: Ronald Bossemeyer apresentando Elsimar Coutinho para a conferência de abertura.
O fato de ter vivenciado, há vinte anos, os dois protagonistas em questão, potencializou a sensação do “fazer parte” que cada um de nós carrega quando vê, ainda hoje, dois parceiros, amigos e irmãos declarados demonstrarem tanto amor e solidariedade. Para quem não viu, faço essa singela homenagem aos dois dos maiores profissionais que já conheci e transcrevo as palavras vindas de um coração gaúcho para um coração baiano.
“Meus amigos, apesar da formalidade do momento, afinal nós estamos na sessãosolene inaugural de um congresso dessa magnitude, prestigiado por todos vocês, eu tenho a prazerosa tarefa de cumprir algo protocolar e apresentar um conferencista do seu porte, Elsimar, e eu vou me dirigir a você dessa forma. E essa tarefa me foi outorgada, através do telefone, pelo Paulo e até que passasse a euforia do efeito do convite, levou tempo, pelo grande carinho que tenho por você, mas depois a responsabilidade começou a pesar sobre os ombros e eu pensei em como fazê-la.
Você sabe que apresentar você, na sua Bahia, é mais difícil do que vestir o chapéu de Santos Dumont dentro de uma cápsula espacial, mas aceitei o desafio, pois é o momento de dizer algumas verdades que você tem que ouvir.
Você sabe que nós começamos não tão juntos, mas muito próximos e na década de 70 – depois de Cristo- eu vim aqui visitá-lo, a convite do Professor José Adeodato Filho, e preciso dizer a vocês que, apesar de minha proveniência de uma cidade, que é a cidade de Pelotas no Rio Grande do Sul, filho único, criado pela avó... mas dizer que foi amor à primeira vista. Nos identificamos desde logo, e me alinhei à sua caminhada. Você tinha muito mais experiência, na época – e continua tendo, e enfrentamos muita dificuldade ao longo dessa caminhada, quando falar em ter os filhos desejados no momento oportuno era quase palavrão. Nos congressos, tínhamos que falar sobre câncer, sobre infecção, sobre cirurgia para que pudéssemos depois, ter autoridade científica para falar sobre o planejamento familiar e anticoncepção.
Uma quantidade de gente tombou pelo caminho, nós tivemos a graça de sobreviver e homenageando, anonimamente, a tantos quantos nós encontramos nessa caminhada, quero continuar me dirigindo a você, dizendo que me lembro de um momento especial quando tal foi a nossa identidade, a nossa proximidade que, no outro lado do oceano, muito longe, eu me lembro de um congresso realizado em Marrocos, na noite inaugural, estávamos à beira de uma piscina com tochas acesas, todo o ambiente iluminado pelo fogo, pelas labaredas que estavam nos entusiasmando e nos sensibilizando, nos tocando o coração; eu fiz uma proposta a você e essa proposta foi muito diferente do que a maioria dos maldosos aqui presentes estão pensando. Tal era a admiração, o carinho, a amizade, o respeito por você, que achei que era muito mais justo justificar tudo isso convidando você para ser meu irmão, do que continuarmos apenas como amigos e pra minha grande surpresa, você aceitou desde logo e desde então temos vivido esta real amizade fraterna ...
Deixa eu contar uma estória:- a medida que se envelhece, se entesoura momentos importantes. Eu me lembro que muitos anos atrás, quando fiz o parto de uma cigana, fui convidado para padrinho - possivelmente para não cobrar o parto – tornei-me padrinho, minha mulher aceitou, me acompanhou, minha mãe compareceu ao jantar, havia uma mesa enorme com todas as iguarias que vocês possam imaginar: leitão, peru, etc.... .um cigano grande e barrigudo sentado no centro, me fez sentar ao lado e disse essa frase, Elsimar: - “Doutor, (vocês sabem como eles são irreverentes) parente agente já nasce. Padrinho e irmão é parente escolhido!” Baseado nisso, achei que devia homenagear aquele momento de uma amizade tão preciosa pra mim , convidando para ser meu irmão, por esta razão.
Hoje, agora, eu lhe falo como irmão. É ótimo estar aqui e tenho o prazer de apresentá-lo, você sabe que, além de ser um ícone para todos nós, você é o homem que protagonizou grande parte da história da fertilidade no Brasil e você transcendeu as fronteiras físicas e literárias, enfim, de qualquer tipo de onda que você quiser considerar e nos projetou lá fora e nos levou junto, pelo simples fato de que compartilha conosco todas as suas idéias, nos convida a associarmos a você, enseja oportunidades, conduz a mão de cada um de nós para alguma coisa que você acredita como verdade, que deve ser perseguida. Então, por tudo isso e por muito mais que eu poderia dizer, mas por respeito aos tímpanos, ao coração e a tempo dos presentes,, quero apenas convidar o meu irmão para fazer a sua conferência de abertura e dizer que todos nós vamos estar saboreando cada minuto que você vai ocupar do nosso tempo como hoje, durante a tarde, todos nós ficamos eletrizados com as estórias que você contou sobre a ciência e sua vivência em ciência, que é o que realmente interessa e polariza a atenção.
A palavra é sua, perdoe se não fui suficientemente eloqüente para transmitir o que gostaria, em nome de todos os amigos aqui presentes, mas cada um tem as suas limitações e essas são as minhas.”