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Quando começa a vida?
Foi este o título escolhido para a minha conferência proferida no último congresso de reprodução humana realizado recentemente em Belém do Pará. A pergunta vem sendo feita aos especialistas com freqüência cada vez maior à medida que as novas técnicas de fertilização in vitro tornam a concepção um ato laboratorial assexuado executado pelo médico no qual pai e mãe participam apenas como doadores de gametas. Interessava aos participantes do congresso ouvir o pensamento do professor de reprodução humana a quem atribuíam autoridade para a análise da questão, principalmente porque as opiniões sobre o assunto são muito variadas em virtude dos aspectos éticos, morais e religiosos envolvidos. Para abordar o problema, temos que considerar em primeiro lugar como definir o que é a vida. Muitos pensadores, filósofos e cientistas tentaram responder a essa pergunta. . O físico Schrodinger no seu livro "O que é a vida" tenta dar uma resposta baseada na física quântica analisando o papel das moléculas na organização de uma célula, enfatizando a importância do não equilíbrio como condição básica para a existência daquilo que poderíamos chamar de vida. Mas, seria uma única célula um ser vivo? Uma ameba, por exemplo? Uma bactéria. Um vírus que é constituído apenas de DNA (ou RNA)? Quando começa a vida para um vegetal? Quando ocorre a polinização na flor? Quando se forma o fruto? Quando uma semente é engolida por um animal que comeu a fruta? Quando a semente perde sua casca no tubo digestivo do animal? Quando cai no solo? Quando começa a germinar? Quando formam os cotilédones? As primeiras folhas? Quando transferimos espermatozóides para uma mulher estamos criando as condições que consideramos fundamentais para que haja o encontro dos gametas no seu trato reprodutivo. Depois de ter deixado a semente com a mulher, o homem pode se afastar ou morrer que a fertilização ocorrerá sem a sua posterior colaboração. Os espermatozóides se deslocam as próprias custas até o oviduto onde buscam o óvulo para penetrá-lo e a ele fundir-se, fertilizando-o. Será este o momento em que começa a vida do ser humano? Se fizermos um teste de gravidez nas 24 horas que se seguem à fertilização do óvulo o resultado será negativo. Se pesquisarmos através de uma histeroscopia a presença do ovo fertilizado ou de uma mórula, nada encontraremos, porque nos primeiros dias após a fertilização o ovo fertilizado encontra-se na trompa. Somente cerca de 8 dias após a fertilização é que o ovo em desenvolvimento sob a forma de trofoblasto se implanta no útero. A partir daí a gravidez pode ser confirmada, tanto pela pesquisa do embrião no útero quanto pela pesquisa de gonadotrofinas coriônicas na urina ou no sangue. Será nesse momento que começa a vida? Nota-se que nos dias que precedem à implantação é possível fragmentar-se o embrião para obtenção de múltiplos, que podem ser removidos e transferidos para úteros de outras mulheres nas quais se implantarão. Para esses outros embriões quando começaria a vida? Cada um deles pode ser congelado e guardado para ser implantado meses ou anos depois. Quando começaria a vida desses? Para algumas religiões a vida começa quando o feto começa a bulir. Para outros a vida só começa com o nascimento. Há quem sustente que a vida se inicia quando os hormônios sexuais inundam seu corpo e "você começa a se entender por gente". Isso ocorre com a chegada da puberdade e as mudanças corporais que determinam a identidade sexual. Para a cantora Billie Holiday, "Life begins when you fall in love". Para o homem que põe o sucesso como alvo, a vida só começa quando se alcança o sucesso. Muitos dizem que a vida começa aos 40 anos. Outros acham que é quando você tem o primeiro filho. Há ainda os que consideram o momento em que você decide "aproveitá-la". Tenho um amigo que afirma que só soube o que era viver quando se separou da sua primeira mulher. Um outro jura que só saiu do limbo quando recebeu a herança do avô. Para mim nenhum destes momentos pode ser considerado aquele em que a vida começa por que tudo indica que carregamos conosco trilhões de células que se reproduzem continuamente e que têm, cada uma delas, o mesmo potencial que têm as células embrionárias (que dadas condições favoráveis) de se transformar em um ser humano adulto. As nossas vidas certamente que não começaram com o encontro dos nossos pais, nem dos avós ou bisavós. Tudo começou há bilhões de anos. Para mim a vida não começa nem termina. Parafraseando Lavoisier, eu diria que a vida não começa nem termina; a vida de cada um se transforma em diversas formas de vida animal ou vegetal e sobrevive na bioesfera contribuindo para aquilo que James Lovelock apelidou de Gaia, e que faz do nosso planeta talvez o único com uma atmosfera pululante de seres vivos que se transformam constantemente uns nos outros. De vegetais que se utilizam de energia solar para incorporar nutrientes que se originam da decomposição dos corpos de animais ou outros vegetais, e de animais que se nutrem, através da ingestão ou absorção de vegetais ou outros animais cujas vidas são sacrificadas em benefício da vida de outros. A vida na terra se iniciou no mar ou nos lagos sob a forma de agregados moleculares formando vírus e algas, e por cerca de 2 bilhões de anos foi o único tipo de vida existente no planeta. Há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás as algas unicelulares, conhecidos como cianobacterias, que se tornaram abundantes nos mares, foram provavelmente os primeiros ocupantes da terra firma . Cerca de 500 milhões de anos atrás apareceram os primeiros organismos multicelulares que foram as plantas. Os animais primitivos, como as amebas, também se originaram nos oceanos mais ou menos salinizados e migrarem para a terra firma depois que as plantas já se encontravam ali servindo de alimento. Antes de se desenvolverem na terra, os animais tiveram que abandonar a maneira primitiva de se reproduzir através do encontro externo dos gametas, adotando a fertilização interna, e inventando assim o sexo. Do ponto de vista legal as especulações sobre a origem da vida deixam de ter importância porque as leis dos homens foram criadas pela sociedade civilizada e quase sempre contrariam a natureza. Certamente que roubar e matar são práticas indispensáveis à sobrevivência no mundo natural, mas condenáveis pelas leis do homem civilizado. Para a lei dos homens o indivíduo está morto quando o cérebro deixa de funcionar, mas na prática a morte é reconhecida pela ausência da respiração e dos batimentos cardíacos. Se o indivíduo deixou de respirar, deixou de pulsar o seu coração, está morto. Neste caso, deveríamos reconhecer o início da vida como o momento em que o coração começa a bater, o que ocorre muitos meses antes do nascimento, quando os pulmões são ativados. Normalmente é em torno da 4ª semana que células cardíacas começam a pulsar. No Brasil nenhuma importância é atribuída ao momento em que se inicia a vida. O aborto é considerado crime ou não a depender das circunstâncias em que ocorrer a concepção ou em relação ao estado de saúde da mãe. Se a concepção ocorreu através de estupro ou se a gravidez ameaça a saúde materna, o aborto deixa de ser crime e pode ser realizado independente do momento em que tenha se iniciada a vida do concepto. Estima-se que só no Brasil encontram-se nas clínicas de fertilidade mais de 20 mil embriões congelados obtidos através de fertilização in vitro, abandonados pelos doadores, e que podem ser utilizados em pesquisa médica ou destruídos. A alternativa nos parece óbvia.
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