Os Anticoncepcionais, a Reposição Hormonal, o Sexo Oral e a Candidíase

Elsimar Coutinho



Estima-se que 75% das mulheres desenvolvem candidíase vulvovaginal episódica e cerca de 50% sofrem dois ou mais episódios por ano. Uma percentagem menor, mas que vem crescendo nas últimas décadas, sofre de candidíase crônica ou recidivante.

Os fatores citados como os mais importantes facilitadores da infecção são a gravidez, a diabete e uso de antibióticos. O aparecimento freqüente de candidíase em usuárias de associações de estrogênios sintéticos e progestínicos, que experimentávamos como anticoncepcionais nas décadas de 60 e 70, nos levou a avaliar a possível influência dos esteroides sintéticos na patogênese da candidíase. Depois de uma investigação preliminar, realizada na Maternidade Climério de Oliveira, a respeito dos hábitos sexuais das usuárias de diversas associações estudadas, foi constatada uma incidência maior de infecção em mulheres que praticavam o sexo oral. Como não havia referência na literatura a respeito da possível contribuição do sexo oral para a patogenia da vaginite e não havia uma correlação clara entre o tipo de contracepção e a manifestação da doença, o estudo não foi divulgado.

Nas décadas seguintes de 80 e 90, tivemos a oportunidade de observar o efeito benéfico da reposição hormonal sobre as mulheres menopausadas cuja prática do sexo era reativada com o mesmo destemor da concepção indesejada das usuárias da pílula. Assim, tanto a pílula quanto a reposição hormonal contribuíram para um aumento significativo de atividade sexual não reprodutiva, fenômeno que se ampliou bastante com a introdução de Viagra e similares, que tornaram aptos para a prática do sexo recreativo milhões de aposentados.

Nas mulheres menopausadas em uso de estrogênios e testosterona que mantêm uma vida sexual intensa, a candidíase vem comparecendo com freqüência só comparável a das usuárias de anticoncepcionais liberadas para o sexo recreativo. Tanto em um grupo quanto no outro só é difícil encontrar candidíase vulvo-vaginal em mulheres que não praticam sexo oral ou que não usam saliva como lubrificante no ato ou na masturbação.

Não é difícil perceber a correlação entre uma prática sexual que envolve saliva e uma patologia baseada na proliferação de um fungo que vive como saprófito na boca dos mamíferos. Nas nossas observações poderíamos afirmar que é possível praticar-se o sexo oral sem que se desenvolva candidíase, mas é muito difícil encontrar candidíase em alguém que não pratica o sexo oral ou usa saliva como lubrificante vaginal.

Um dos maiores estimulantes do sexo oral é a televisão, que veicula vídeos eróticos nos quais a prática comparece como alternativa obrigatória nas preliminares e, quando praticado pela mulher no seu parceiro seguida de penetração, estabelece a semeadura do fungo através da deposição de saliva no interior da vagina.

Na boca, o pH neutro da saliva mantém a cândida como saprófito, só se multiplicando rapidamente quando ocorre um ferimento ou quando há acidez exagerada. Nesse caso surgem as aftas, que são colônias de cândida que cobrem as feridas impedindo a penetração e a infecção bacteriana. Na vagina, com a ajuda do Lactobacillus acidofilus, o pH é ácido, o que facilita a rápida multiplicação do fungo, principalmente quando há ferimentos.

Na minha concepção a Candida albicans, assim como outras espécies de Candida, são simbiontes que vivem na boca dos mamíferos e nos protegem se multiplicando nos ferimentos que ocorrem na cavidade bucal graças a alterações locais (pH, presença de nutrientes), que fecham rapidamente as feridas impedindo a entrada de bactérias. Quando levadas a vagina através de práticas sexuais exclusivas da espécie humana,, encontram as condições de proliferação ideais (pH, presença de nutrientes) e se multiplicam abundantemente, provocando a infecção.

Com um pouco de higiene e imaginação, poderemos diminuir bastante a incidência da candidíase.


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