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Uma Explicação para a Origem da Endometriose
Hugo Maia Filho
Para que se possa responder a esta questão é preciso inicialmente entender o que ocorre na cavidade pélvica com a chegada das células endometriais transportadas através do fluxo retrógrado do sangue menstrual 1,2. Em primeiro lugar, estas células já estão programadas pela exposição prévia a progesterona para entrarem em apoptose, e, portanto muitas delas simplesmente morrem.
Entretanto ao atingir o peritônio, o sangue menstrual inicia uma intensa
reação inflamatória, que atrai grande numero de células do sistema imunológico
para a região pélvica, entre elas os macrófagos 3.
Estudos recente realmente mostraram que os macrófagos de pacientes com endometriose têm uma capacidade diminuída para a fagocitose das células endometriais, embora não se tenha uma explicação de como isto ocorreria a nível celular e molecular. Um provável mecanismo pelo qual estas células seriam poupadas pelos macrófagos está no fato de que elas adquiriram a capacidade de produzir estrogênios.
Um dos maiores avanços nos últimos anos foi a descoberta de que os
endométrios de pacientes que desenvolvem patologias como adenomiose,
mioma, pólipo endometrial e endometriose são capazes de produzir estrogênios
e esta capacidade é conseqüência da expressão da enzima aromatase neste
tecido 4-6. A aromatase p450 é uma enzima que catalisa a aromatização
dos androgênios circulantes em estrogênios e a sua expressão no endométrio
é induzida pelas prostaglandinas e outros mediadores ligados a inflamação
3,4.
Estas células endometriais passam a produzir grandes quantidades de estrogênios no local onde se encontram, e estes, por seu turno, bloqueiam os mecanismos de fagocitose dos macrófagos, impedindo desta maneira a destruição daquelas células. Sabe-se há muito tempo que os estrogênios inibem a função de fagocitose dos macrófagos, e este é o mecanismo pelo qual estes impedem a osteoporose, a formação da placa de ateroma e a doença de Alzheimer.
Os estrogênios inibem os níveis de interleucina-6 nos macrófagos bloqueando deste modo, seletivamente a fagocitose, sem interferir na produção dos fatores de crescimento celular e dos relacionados com a angiogênese. Desta maneira os macrófagos chegam até as células endometriais sem, contudo destruí-las, pois a sua função de fagocitose está inibida pelos estrogênios produzidos nestas pela ativação da enzima aromatase. Paradoxalmente o macrófago passa a ser um agente facilitador da progressão das lesões de endometriose, pois os fatores de crescimento celular e inflamatórios produzidos por estes vão ativar ainda mais a enzima aromatase e o processo de angiogênese nos focos de endometriose 3,5,6.
A expressão de aromatase nas células endometriais é, portanto o elemento chave para o implante destas células na cavidade pélvica e o conseqüente desenvolvimento das lesões de endometriose. Por este motivo o bloqueio da enzima aromatase deve ser a base racional para o tratamento clínico da endometriose.
Recentemente descobrimos que contraceptivos orais contendo gestodeno quando dados de maneira estendida eram capazes de bloquear a expressão de aromatase no endométrio de pacientes com endometriose, adenomiose e mioma 5,7. Estes achados confirmam estudos anteriores que mostraram que os anticoncepcionais orais, principalmente quando usadas de maneira estendida, são medicações eficazes tanto para o controle dos sintomas como para evitar a recorrência das lesões de endometriose 8,9. Referências 1. Eskenazi B et al. Epidemiology of endometriosis. Obstet. Gynecol.
Clinics North Amer.24:235-58, 1997. 2. Kelly RW et al. Inflammatory mediators and endometrial function-focus on perivascular cell. Journal of Reproductive Immunology 57:81-93, 2002 3. Bulun S.E, Gurates B, Fang Z, Tamura M, Sebastian S, Zhou J, Amin S, Yang S..
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