Por definição o diabetes melitus é uma condição cuja característica fundamental é a hiperglicemia. Por isso mesmo a principal distinção que se fazia no passado entre o diabetes tipo I e o diabetes tipo II era a fase da vida na qual se manifestava a hiperglicemia, o primeiro tipo na infância ou na adolescência (diabetes infantil ou juvenil) e o segundo tipo na idade avançada (diabetes senil). A ocorrência precoce da hiperglicemia resultava da destruição (autoimune) da fonte da insulina no pâncreas, que transformava o portador do diabetes tipo I em dependente de insulina para o resto da vida. Nos diabéticos do tipo II a hiperglicemia, geralmente moderada, resultava do progressivo esgotamento parcial ou total do pâncreas no fim da vida, a dependência em insulina ocorrendo raramente.
Hoje, o dramático diabetes tipo I continua a ser conhecido pela sua dependência em insulina, mas, apesar da hiperglicemia ocorrer predominantemente na juventude, já surgem casos em adultos e até em idosos. Por outro lado, enquanto o tipo II, que inclue hoje a maior parte dos diabéticos do mundo (mais de 90%), continua a atingir predominantemente pessoas adultas e se caracterizar por sua não-dependência em insulina, a ocorrência da hiperglicemia vem se manifestando cada vez mais cedo em adultos jovens e até em crianças. Outra diferença entre os dois tipos de diabetes, que era importante no passado recente e que fica cada vez menos evidente, é a magreza nos diabéticos insulino-dependentes e a gordura nos não-insulino-dependentes. Do mesmo modo a herança que se supunha rara no tipo I e comum no tipo II, hoje é reconhecida no grupo I (até 50%) e quase obrigatória no grupo II (até 100%). Na realidade, tanto os portadores do grupo I podem ter ascendentes diabéticos do grupo II como os do grupo II podem ter antecedentes do grupo I.
De especial interesse para os ginecologistas e obstetras são as relações do diabetes com a função reprodutiva. O diabetes tipo II, além de estar intimamente associado tanto ao diabetes gestacional, que precede a hiperglicemia instalada do diabetes tipo II por cerca de dez anos, como ao ovário policístico com a sua anovulação, hiperandrogenismo e alto risco de abortamento espontâneo.
Como o desenvolvimento da hiperglicemia é universalmente reconhecida como condição básica para se diagnosticar o diabetes melitus, e no diabetes tipo II a hiperglicemia em jejum só se manifesta tardiamente (o diagnóstico laboratorial exige uma curva de tolerância a glicose típica da resistência a insulina nem sempre esclarecedora), como caracterizar clinicamente uma jovem com ovários policísticos, hiperandrogenismo, excesso de peso, anovulação e herança diabética? Como transmitir à jovem cliente que ela é uma futura diabética, sem estigmatizá-la, quando é normoglicémica ou hipoglicémica? O mais difícil é talvez convencê-la e a sua família de que o melhor tratamento para resolver o problema de infertilidade ou de abortamento habitual é reduzir a resistência à insulina com o uso de um anti-diabético oral ou de uma dieta rigorosa, mesmo que não seja obesa. Quanto ao diagnóstico, se os seus sintomas são provocados pelo diabetes tipo II, de que é herdeira, terá que ser necessariamente diabetes tipo II com hipoglicemia ou normoglicemia. Apesar desta afirmativa se constituir um aparente oxímoro, a realidade é que os portadores de diabetes tipo II, que representam a maioria absoluta dos diabéticos do mundo, sofrem as conseqüências da doença, que incluem fome exagerada por carboidratos, facilidade de ganhar e dificuldade de perder peso, ovários policísticos, hirsutismo, acanthosis nigricans, e o abortamento habitual, com glicemia normal ou hipoglicemia.
Bibliografia Consultada
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