Elsimar Coutinho
No início de 1966, descrevemos pela primeira vez como inibir a ovulação por longos períodos através de injeções de acetato de medroxiprogesterona. 1 A duração do efeito era proporcional à dose administrada, obtendo-se após a injeção de 400 mg da progesterona uma amenorréia de 6 meses. Assim com apenas duas injeções a intervalos de 6 meses a mulher poderia ficar um ano sem ovular e sem menstruar. Alegávamos então que a supressão da menstruação resultante do efeito prolongado da progesterona sobre a ovulação se revelava uma vantagem sobre a pílula anticoncepcional cujo uso exigia na época a descontinuação a intervalos de três semanas para provocar um sangramento mensal que simulasse uma menstruação. Argumentavam os defensores do sangramento mensal que o simulacro de menstruação seria a prova da inexistência da gravidez e a semelhança com o ciclo menstrual serviria para convencer os adversários da contracepção que o método era natural.
Estimulado pelo entusiasmo das mulheres que experimentaram o tratamento, que lhes proporcionava períodos longos sem menstruar e sem engravidar, passei a oferecer a medroxiprogesterona às mulheres que desejassem parar de menstruar. As usuárias do novo método mais entusiasmadas eram aquelas que sofriam de anemia, dismenorréia e da síndrome pré-menstrual. Os benefícios colaterais da supressão da menstruação nos pareciam tão evidentes que procuramos desenvolver outros métodos de contracepção que eliminassem a menstruação. O uso contínuo dos anticoncepcionais orais foi avaliado inicialmente como a forma mais acessível de alcançar esse objetivo e que poderia ser implementado imediatamente.
Foi considerando a amenorréia induzida uma forma de prevenir doenças catameniais que durante três décadas nos engajamos no desenvolvimento de anticoncepcionais, cuja eficiência como contraceptivos aumentava significativamente com a abolição do período de sangramento. Trabalhando na Maternidade Climério de Oliveira em Salvador e participando de estudos multicêntricos com o suporte das fundações Ford e Rockefeller, do Population Council e da Organização Mundial de Saúde, desenvolvemos métodos supressores da menstruação, que incluem implantes, injetáveis, anéis vaginais, adesivos e dispositivos intra-uterinos, além das pílulas que podem ser administradas também por via vaginal.2-6 Como Presidente do Congresso Mundial de Endometriose em 1994, propus a indução da amenorréia como forma de evitar a endometriose, a mais importante causa de infertilidade feminina.7 Os benefícios da eliminação da menstruação, que defendo em três livros, o primeiro publicado em 1996 e que encontra-se na sétima edição, são inúmeros e tornam a contracepção sem menstruação a forma mais eficiente de preservar a saúde e a fertilidade da mulher moderna.8-10 Não menstruando, as mulheres desenvolvem menos anemia, endometriose, tensão pré-menstrual, doença inflamatória pélvica, infertilidade, depressão e câncer.11 Também viverão mais de acordo com o recente estudo dos noruegueses Jacobsen, Heuch e Kvale, que constataram uma relação entre a mortalidade por todas as causas e a idade da menarca. Quanto mais cedo a menarca e quanto mais numerosas as menstruações maior o risco de morte.12
Após a publicação do meu livro “Is Menstruation Obsolete?”10 pela Oxford University Press nos Estados Unidos e no Reino Unido e, sobretudo após as avaliações do mesmo pelo Journal of the American Medical Association (JAMA), pelo Lancet e pelo British Medical Journal, a indústria farmacêutica passou a acreditar que o sangramento mensal era descartável. Também foram encorajadores os estudos que revelaram a preferência da maioria das mulheres por não menstruar caso tivessem esta opção.13,14,15 Essa preferência foi atendida recentemente com a aprovação pelo FDA do Lybrell cuja característica fundamental é a eliminação da menstruação. Não é de admirar, portanto, que a revista Time no seu último número de 2007 publicado no dia 24 de dezembro, o resultado de uma enquête entre os entendidos para a eleição dos dez maiores avanços da Medicina, tenha apresentado a eliminação da menstruação como o 5º maior avanço da Medicina, o único dos dez na área da ginecologia.16
O reconhecimento formal pela FDA, o mais exigente órgão regulador de medicamentos do mundo, de que a supressão do sangramento mensal não é prejudicial às usuárias de esteroides anticoncepcionais, liberando o seu uso sem restrições, é a chancela oficial que faltava para validar a minha reiterada afirmação de que, a rigor, o sangramento mensal não é normal, nem mesmo desejável. 17
Referências
1. Coutinho EM, de Souza JC e Csapo AI. Reversible sterility induced by medroxyprogesterone injections. Fertil. Steril. 17:261, 1966.
2. Coutinho EM, de Mattos CER, Sant’Anna AR, Adeodato Filho J. Long term contraception by subcutaneous silastic capsules containing megestrol acetate. Contraception 2:313, 1970.
3. Coutinho EM e da Silva AR. One year contraception with norgestrienone subdermal silastic implants. Fertil. Steril. 25:170, 1974.
4. Coutinho EM, da Silva AR, Carreira CM, Chaves MC e Adeodato Filho J. Contraceptive effectiveness of silastic implants containing the progestin (R-2323). Contraception, Vol. II, No. 6: 625-637, 1975.
5. Coutinho EM, da Silva AR e Kraft HG. Fertility control with subdermal silastic capsules containing a new progestin (ST-1435). Fertil. Steril. 21>103, 1976.
6. Sivin I, Stern J, Coutinho E et al. Prolonged intrauterine randomized study of the levonorgestrel 20mcg/day (LNg20) and the Copper T380 Ag IUD. Contraception 44; 5:473-480, 1991.
7. Coutinho EM. Induced amenorrhea in the prevention of endometriosis: a proposal for the third millennium. Em: Coutinho EM, Spinola P e de Moura L (Eds): Progress in the Management of Endometriosis. Proc. 4th World Congress on Endometriosis. Parthenon Publishing UK, pp 341-345, 1994.
8. Coutinho EM. Menstruação, a sangria inútil. Editora Gente, São Paulo, 1996.
9. Coutinho EM. Vivendo sem regras e sem TPM. Editora Landscape, São Paulo, 2007.
10. Coutinho EM com Segal SJ. Is Menstruation Obsolete? Oxford University Press, New York e Oxford, 1999.
11. Coutinho EM. To bleed or not to bleed, that is the question. Contraception 76:263-266, 2007.
12. Jacobsen BK, Heuch I, Kvale G. Association of low age at menarche with increased all-cause mortality: a 37-year follow-up of 61,319 Norwegian women. Am. J. Epidemiology 166(12):1431-1437, 2007.
13. Coutinho EM, O’Dwyer E, Barbosa IC, Zhi-Ping G, Shaaban MM, Aboul-Oyoom M, Aleem HA. Comparative study on intermittent versus continuous use of a contraceptive pill administered by the vaginal route. Contraception 51:355-8, 1995.
14. Edelman A, Lew R, Cwiak C, Nichols M, Jensen J. Acceptability of contraceptive-induced amenorrhea in a racially diverse group of US women. Contraception 75:450-3, 2007.
15. Don Tonkelaar I, Oddens BJ. Preferred frequency and characteristics of menstrual bleeding in relation to reproductive status, oral contraceptive use and replacement therapy use. Contraception 59:357-41, 1999.
16. Time’s Lists of the Year. The 10 Biggest Medical Breakthroughs. Time Magazine, 24/12/2007.
17. Coutinho EM. Is menstruation normal? Suppression of the menstrual cycle in clinical practice. Reproductive Medicine Review 9;3::241-257, 2001.
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