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A relação
entre mioma uterina e infertilidade sempre foi um assunto muito controverso.
Devido os miomas serem os tumores mais freqüentes encontrados nas mulheres, os
seus sintomas são muito variados e dependem não só do tamanho mas também do
numero e da sua localização em relação a cavidade uterina (Wallach 1992). Desta
maneira, os miomas submucosos, devido estarem dentro da cavidade uterina, não
só são os que mais aumentam o sangramento menstrual, mas também são os que têm
o maior efeito adverso na fertilidade (Buttram 1981). Já os miomas intramurais
e subserosos, por outro lado, têm impactos variáveis sobre a fertilidade, que
vão depender das modificações provocadas por estes na cavidade uterina.
Entretanto, um estudo comparando o efeito dos diversos tipos de miomas sobre as
taxas de implantação em pacientes submetidas à fertilização in vitro mostrou que
os miomas subserosos não diminuíam as taxas de gravidez enquanto que tanto os
miomas intramurais assim como os submucosos tinham um impacto negativo sobre
estas (Geva 1998). O efeito dos miomas intramurais era observado mesmo naqueles
casos em que o tumor não deformava a cavidade uterina, o que tornava difícil
explicar como estes tumores poderiam diminuir as taxas de implantação ovular.
Várias hipóteses foram oferecidas para explicar o impacto negativo sobre a
fertilidade causado pela presença dos miomas intramurais e submucosos. Entre
estas podemos citar as alterações na vascularização do endométrio causadas pela
liberação por parte do tumor de fatores angiogênicos, que aumentariam a
proliferação vascular dificultando a gestação e provocando sangramento uterino
anormal (Wallach 1992). De fato a vascularização do endométrio observada
através da histeroscopia é tanto maior quanto mais próximo o mioma estiver da
cavidade uterina (Maia 1995). Entretanto, ainda não se sabe se é o mioma que
influencia o endométrio ou se é este que é importante para o crescimento e os
sintomas dos miomas. O impacto diferente que os miomas subserosos e submucosos
têm sobre a fertilidade provavelmente reflete as importantes diferenças não só
na sua fisiopatologia, mas também na dependência destes tumores aos hormônios
estrogênicos. Por causa disto, o tratamento hormonal é mais eficaz no caso dos
submucosos do que dos subserosos devido a maior quantidade de receptores para os
hormônios estrogênios nestes (Donnez J, 1989). Da mesma maneira que com relação
à fertilidade as alterações menstruais também são mais freqüentes no caso dos
miomas submucosos que dos subserosos e isto se deve a uma maior dependência
destes aos hormônios estrogênios não só para o seu crescimento, mas também para
o aparecimento dos sintomas (Crow 1998, Brosens 1998). A freqüente associação
entre miomas submucosos e estrogênios sugere que os sintomas produzidos por
estes, inclusive o impacto negativo sobre a fertilidade, podem ser conseqüência
do hiperestrogenismo associado com esta patologia. Evidências recentes mostram
que os miomas podem produzir estrogênios localmente no seu interior, e isto se
deve a expressão da enzima aromatase nestes tumores (Sumitane 2000).
Curiosamente o endométrio das pacientes com miomas também é capaz de expressar a
enzima aromatse e, portanto produzir localmente estrogênios. Entretanto, esta
expressão de aromatase só é observada no endométrio das pacientes com miomas
submucosos ou intramurais com história de sangramento uterino anormal. Nas
pacientes com miomas subserosos sem sintomas de sangramento uterino, a expressão
de aromatase no endométrio foi negativa (Maia Jr 2007). Embora estes dados
sejam apenas sugestivos de uma relação entre a expressão de aromatase no
endométrio e a presença de sangramento uterino anormal, a expressão anômala
desta enzima foi também detectada no endométrio de pacientes com outras
patologias como os pólipos endometriais e a adenomiose cuja presença está
associada a um aumento do sangramento uterino (Kitawaki 1997, Maia 2006). Por
sua vez existem evidências clínicas de que a produção local de estrogênios no
útero é mais importante que os estrogênios circulantes para estimular o
crescimento dos miomas (Hozu 2002). Esta produção local de estrogênios tem
também um efeito negativo na fertilidade, pois estudos feitos em pacientes
submetidas à fertilização in vitro, mostraram que as taxas de implantação ovular
ficavam reduzidas à metade se o endométrio expressava a enzima aromatase (Brosens
2003). Estas observações entre expressão de aromatase e a redução da
fertilidade podem explicar o impacto negativo dos miomas sobre as taxas de
gravidez. É importante lembrar que os miomas submucosos e intramurais estão
associados com a expressão de aromatase no endométrio enquanto que esta não se
expressa no endométrio das pacientes com miomas subserosos. Desta maneira, a
presença da enzima aromatase no endométrio das pacientes que têm miomas que
estão associados com uma redução das taxas de gravidezes pode ser o mecanismo
responsável não só pelo sangramento uterino anormal, mas também pela diminuição
da fertilidade. Neste aspecto o uso de contraceptivos orais contendo gestodeno,
dados de maneira contínua, pode ter um papel importante no controle dos sintomas
ligados ao hiperestrogenismo associados ao mioma, já que o gestodeno é um
inibidor da expressão da enzima aromatase no endométrio (Maia 2007).

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