Efeitos benéficos dos hormônios no câncer de mama

  Elsimar Coutinho

 

Do ponto de vista endócrino a vida da mulher pode ser dividida a grosso modo em duas partes.  A primeira metade se inicia na puberdade e termina na menopausa, durando cerca de quarenta anos.  Essa metade da vida se caracteriza pela atividade plena dos ovários gerando hormônios ovarianos em abundancia, que dominam o corpo e a mente da mulher, transformando-a em uma eficiente fábrica de seres humanos a sua semelhança.  A expressão “desde que me entendo por gente” exprime bem a conscientização tanto das mulheres quanto dos homens da importância da puberdade como o marco da sua existência física e mental que se inicia sob a influencia dos hormônios gonadais e nos caracteriza como mulher ou como homem.  É sob o efeito dos hormônios que se desenvolvem os atributos femininos que fazem da mulher o principal alvo da atenção, do afeto, da admiração e do desejo dos homens.  A produção de hormônios sexuais pela mulher ao longo dos 40 anos de sua vida reprodutiva é fenomenal.  Os ovários que são a principal fonte tanto dos androgênios quanto dos estrogênios mantêm níveis de testosterona e estradiol circulando no sangue e atuando sobre praticamente todos os órgãos do corpo e especialmente naqueles mais ricos em receptores como o trato genital e as mamas.

Durante o período de abundancia hormonal a incidência de câncer de mama, aquele que mais assusta as mulheres, é inferior a 1%.  É somente a partir dos 50 anos que o risco alcança 1%.  Ao fim da primeira década pós-menopausa, aos 60 anos, a incidência aumenta para 2%, um aumento substancial de 100%.  Ao fim da segunda década, ao alcançar 70 anos, a incidência aumenta 200% se comparado àquela dos 50 anos e atinge 3%.  Na terceira década, ao alcançar 80 anos, o risco terá aumentado para 4%, aos 90 terá atingido 5% e aos 100 anos chegará aos 6%, que é o “lifetime risk” de uma mulher “hispânica” vivendo nos Estados Unidos.  É, portanto inteiramente na segunda fase da vida da mulher, quando os hormônios deixam de ser gerados nos ovários, um período de carência ou penúria hormonal, que o câncer se apresenta (Figure 1).

 Assim, se todas as mulheres ainda tivessem uma expectativa de vida de 50 anos, o câncer de mama seria uma doença rara, principalmente se continuassem a ter muitos filhos como antigamente.1

É evidente, portanto, que a ausência dos hormônios no climatério tem mais a ver com o câncer de mama do que a sua presença 1.  Que tipo de alteração facilitadora do câncer contribuiria então para a ocorrência da doença se concentrar na segunda fase da vida da mulher quando os hormônios, particularmente os estrogênios, estão mais baixos ou ausentes?  Sugerimos como principais conseqüências da baixa hormonal as perdas físicas, que alteram a sua aparência e podem ter um efeito devastador na auto-estima da mulher, contribuindo para um retraimento que leva ao isolamento e conseqüente inatividade que agravam a perda óssea e promovem o ganho de peso, por si só um importante fator determinante do câncer de mama (Figura 2) 2.

O retraimento leva a depressão agravada pela sensação de abandono que se estabelece com uma sucessão de perdas dos mais velhos.  Pai, mãe, avós, amigos, que inevitavelmente esvaziam o seu universo dificilmente substituível para uma mulher deprimida e com a auto-estima diminuída.  A situação se apresenta mais desesperadora para aquelas que têm problemas financeiros freqüentes entre as aposentadas, divorciadas e desempregadas.  Se perdem o companheiro é muito difícil conseguir um substituto sem os atrativos que esbanjava enquanto se encontrava bem servida de hormônios.  Tudo isso agravado pelo sedentarismo é fonte importante de stress que determina o aumento do cortisol que, por sua vez, diminue as defesas, contribuindo para facilitar o aparecimento do câncer. 

Os estudos como o Women’s Health Initiative (WHI), cuja divulgação precipitada na imprensa leiga prejudicou a imagem da terapia hormonal, mostrou na realidade que a reposição hormonal com os estrogênios diminui a incidência de câncer de mama e de intestino.  O principal efeito negativo resultado do estudo, que foi o aumento na incidência de câncer de mama em mulheres que usaram um derivado sintético da progesterona (acetato de medroxiprogesterona), foi o que a mídia divulgou em manchetes, justamente aquele que se referia ao uso de uma droga cujo uso em mulheres menopausadas já era contra-indicado por muitos especialistas porque anula muitos dos benefícios dos estrogênios.

Estudos recentes baseados em meta-análises demonstraram que o risco de câncer de mama em mulheres americanas que fazem uso de hormônios é relativamente baixo comparado com aquelas que não fazem uso de hormônios (Figura 3) 3.

 

 De maior interesse são as meta-análises de estudos feitos em mulheres portadoras de câncer de mama que optaram por fazer terapia hormonal depois de retirada do tumor, usando implantes de estradiol e testosterona.  Os estudos mostraram que comparadas a não-usuárias ao fim de dez anos, as usuárias de terapia hormonal tiveram menos recidivas (6%) do que as não-usuárias (33%) 4.  Talvez mais importante do que esses estudos são aqueles que mostram a menor mortalidade por câncer das usuárias de terapia hormonal do que as controles (Figura 4) 4

 Em uma avaliação das causas dessa perturbadora diferença em mortalidade foi demonstrada recentemente que as usuárias de terapia hormonal que têm câncer de mana desenvolvem menos metástases do que as não-usuárias (Figura 5) 5.

Em defesa da progesterona, Agnes Fournier e colaboradores, analisando o risco de câncer de mama em 54.548 mulheres na pós-menopausa, concluíram que mesmo usados a curto prazo derivados da progesterona sintéticos, que na realidade não são hormônios e sim drogas, aumentam o risco enquanto a progesterona micronizada diminue o risco 6.

Referências

1 - Love S.  Risk factors.  Genetic and Hormonal.  In: Dr. Susan Love’s Breast Book, Third Edition.  Persus Publishing, Cambridge, Mass. 2000; pp. 215-236.

2 - A. Heather Eliassen; Graham A. Colditz; Bernard Rosner; Walter C. Willett; Susan E. Hankinson Adult Weight Change and Risk of Postmenopausal Breast Cancer.  JAMA, July 12, 2006; 296: 193 - 201.

3 - Wendy Y. Chen, JoAnn E. Manson, Susan E. Hankinson, Bernard Rosner et al.  Unopposed Estrogen Therapy and the Risk of Invasive Breast Cancer.  Archives of Internal Medicine 2006 : 166 ; 1027-32.

4 - Natrajan KN, Soumakis K e Gambrell Jr RD.  Estrogen replacement therapy in women with previous breast cancer.  Am J Obstet Gynecol 1999; 181;2:288-95.

5 - Schuetz F. Diel I, Pueschel M, von Holst T, Solomayer E, Lange S, Sinn P, Bastert G, Sohn C.  Reduced incidence of distant metastases and lower mortality in 1072 patients with breast cancer with a history of hormone replacement therapy.  Am J Obstet Gynecol 2007; 196:342.e1 – 342.e9.

6 - Fournier et al.  Breast cancer risk in relation to different types of hormone replacement therapy in E3N-EPIC cohort.  Int. J. Cancer 2005; 114, 448-454.

 

 


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