Médico e Professor Adjunto de Ginecologia na PUCRS, Rio Grande do Sul
Sexo é a forma
pela qual os seres vivos sexuados se reproduzem. O homem está entre eles. Porém,
um dos elementos que o distinguem dos demais membros dessa categoria zoológica é
o de ser racional e inteligente, enquanto os demais, irracionais. Estes, quando
se acasalam, isto é, praticam o sexo, o fazem somente para fins procriativos,
seguindo um ditame da natureza, biológico, instintivo. O animal humano tem
capacidade de dominar, voluntariamente, sua sexualidade, exercendo-a para
atingir outros objetivos, diversos da reprodução. Foi Freud quem trouxe à luz o
conhecimento de que o ser humano tem uma sexualidade que transcende a de função
reprodutiva e que ela está presente desde o nascimento até a morte.Os principais
mecanismos que o ser humano utiliza no exercício desse domínio são a sublimação
e o planejamento familiar. O primeiro corresponde à capacidade de desviar os
impulsos internos e externos para outras atividades prazerosas que não a
intimidade erótica. O segundo corresponde à utilização de meios e recursos que
possibilitam congressos íntimos erotizados sem o risco de uma gestação
conseqüente, os métodos contraceptivos. Na Bíblia Sagrada, no livro do Gênesis,
o episódio envolvendo Onan nos mostra que essa dissociação de sexo e reprodução
acompanha a história da humanidade, desde seus primórdios. Não é fenômeno
originário em nossa era, nem nos séculos mais recentes.
Há que se reconhecer que o domínio sobre a
sexualidade está intimamente relacionado ao grau de evolução sócio-cultural do
indivíduo. Será tanto mais efetivo quanto mais aculturada for a pessoa. As
pessoas com nível muito baixo de aculturamento tendem a comportar-se de forma,
proporcionalmente, semelhante aos irracionais, que são dominados inteiramente
pelos impulsos instintivos primitivos. Por isso, nas sociedades bem
desenvolvidas econômica, social e culturalmente, o planejamento familiar
acontece de forma espontânea. O sexo é exercido de modo dissociado da
reprodução. Os indivíduos planejam suas proles livremente e tendem a ter poucos
filhos. O contrário ocorre nas comunidades desprovidas, nas quais os indivíduos
se reproduzem muito, praticando o sexo como função procriativa,
descontroladamente. Isto ocorre aqui, nas nossas comunidades periféricas,
marginalizadas. Alguém flagrou que se pode medir o grau de pobreza de uma vila
pelo número de cachorros e crianças soltos pelas vielas. Nestas, o planejamento
familiar deveria ser ativamente promovido pelos responsáveis pelo destino da
sociedade, através de programas estruturados com esse fim. Não dá para esperar
que se desenvolvam.