Sexo e Reprodução 

Marcelino E. H. Poli

Médico e Professor Adjunto de Ginecologia na PUCRS, Rio Grande do Sul

Sexo é a forma pela qual os seres vivos sexuados se reproduzem. O homem está entre eles. Porém, um dos elementos que o distinguem dos demais membros dessa categoria zoológica é o de ser racional e inteligente, enquanto os demais, irracionais. Estes, quando se acasalam, isto é, praticam o sexo, o fazem somente para fins procriativos, seguindo um ditame da natureza, biológico, instintivo. O animal humano tem capacidade de dominar, voluntariamente, sua sexualidade, exercendo-a para atingir outros objetivos, diversos da reprodução. Foi Freud quem trouxe à luz o conhecimento de que o ser humano tem uma sexualidade que transcende a de função reprodutiva e que ela está presente desde o nascimento até a morte.Os principais mecanismos que o ser humano utiliza no exercício desse domínio são a sublimação e o planejamento familiar. O primeiro corresponde à capacidade de desviar os impulsos internos e externos para outras atividades prazerosas que não a intimidade erótica. O segundo corresponde à utilização de meios e recursos que possibilitam congressos íntimos erotizados sem o risco de uma gestação conseqüente, os métodos contraceptivos.  Na Bíblia Sagrada, no livro do Gênesis, o episódio envolvendo Onan nos mostra que essa dissociação de sexo e reprodução acompanha a história da humanidade, desde seus primórdios. Não é fenômeno originário em nossa era, nem nos séculos mais recentes.

Há que se reconhecer que o domínio sobre a sexualidade está intimamente relacionado ao grau de evolução sócio-cultural do indivíduo. Será tanto mais efetivo quanto mais aculturada for a pessoa. As pessoas com nível muito baixo de aculturamento tendem a comportar-se de forma, proporcionalmente, semelhante aos irracionais, que são dominados inteiramente pelos impulsos instintivos primitivos. Por isso, nas sociedades bem desenvolvidas econômica, social e culturalmente, o planejamento familiar acontece de forma espontânea. O sexo é exercido de modo dissociado da reprodução. Os indivíduos planejam suas proles livremente e tendem a ter poucos filhos. O contrário ocorre nas comunidades desprovidas, nas quais os indivíduos se reproduzem muito, praticando o sexo como função procriativa, descontroladamente. Isto ocorre aqui, nas nossas comunidades periféricas, marginalizadas. Alguém flagrou que se pode medir o grau de pobreza de uma vila pelo número de cachorros e crianças soltos pelas vielas. Nestas, o planejamento familiar deveria ser ativamente promovido pelos responsáveis pelo destino da sociedade, através de programas estruturados com esse fim. Não dá para esperar que se desenvolvam.

 

 


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