Hormônio Anti-Mulleriano e Contagem de Folículos Antrais como Marcadores de Reserva Ovariana 

Bruno Ramalho de Carvalho1 e Ana Carolina Japur de Sá Rosa e Silva2

Médico pós-graduando1. Médica Assistente2. Setor de Reprodução Humana. Departamento de Ginecologia e Obstetrícia. Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Correspondência: anasars@convex.com.br

Acredita-se que a crescente tendência dos casais modernos de postergarem a primeira gestação esteja supostamente associada ao aumento numérico dos casos de subfertilidade e, conseqüentemente, à procura por serviços de reprodução assistida. Neste contexto, a avaliação da reserva ovariana assume papel importante na tentativa de se predizer a resposta ao estímulo gonadotrófico exógeno e, assim, melhor aconselhar a paciente e programar o esquema a ser utilizado.

As dosagens séricas de FSH, estradiol e inibina B têm sido classicamente utilizadas para inferência da função gonadal. Entretanto, sabe-se atualmente que seus níveis na circulação sanguínea pouco refletem a dinâmica folicular, visto não existir forte correlação com a população de folículos primordiais, tidos como representantes da reserva funcional ovariana (Tremellen et al, 2005; Fanchin et al, 2005). A busca por resultados mais representativos da capacidade ovariana de resposta ao estímulo exógeno tem direcionado o foco da ciência para dois marcadores: a concentração sérica do hormônio anti-Mülleriano (AMH) e a contagem ultra-sonográfica de folículos antrais (Fanchin et al, 2003, Tremellen et al, 2005; Broekmans et al, 2006).

O AMH é um hormônio glicoprotéico da superfamília dos fatores de crescimento de transformação β, expresso nos ovários de meninas a partir da 36ª semana de vida intra-uterina e com maiores concentrações a partir da puberdade (Fanchin et al, 2003). Exceto pela regressão dos ductos de Muller na diferenciação sexual de embriões masculinos, o papel biológico do AMH permanece incerto. Dados recentes levam a crer que o AMH atue como modulador do próprio recrutamento folicular e, também, na regulação da esteroidogênese (Fanchin et al, 2003). Sua maior expressão durante o menacme é detectada nas células da granulosa desde a fase de folículo primordial até a fase antral precoce, antes que ocorra a seleção para a dominância (Visser & Themmen, 2005).

Em revisão sistemática publicada por Broekmans et al, em 2006, apenas dois estudos envolvendo o AMH e a predição da resposta ovariana puderam ser analisados, o que não permitiu colocá-lo num patamar superior em relação a outros testes. Entretanto, por estimar a quantidade e a atividade das unidades recrutáveis de um pool inicial de folículos em estágios precoces de maturação, vários autores têm considerado o AMH como o marcador sérico mais fidedigno para a predição da reserva ovariana (van Rooij et al, 2002; te Velde & Pearson, 2002; Gruijters et al, 2003; Fanchin et al, 2003; Visser & Themmen, 2005; Muttukrishna et al, 2005). La Marca et al, em 2007, ratificam essa afirmativa ao demonstrarem sensibilidade de 80% e especificidade de 93% para o teste, quando considerado um limiar de 0,75 ng/ml. Contrapondo-se a FSH, inibina B e estradiol, o AMH apresenta, ainda, a vantagem da reduzida variabilidade de suas concentrações séricas ao longo do ciclo menstrual (Fanchin et al, 2005; La Marca et al, 2006), o que lhe confere credibilidade, uniformidade na avaliação e maleabilidade quanto ao momento de dosagem, ou seja, independente da fase do ciclo menstrual.

Uma forma menos invasiva de avaliar o potencial de resposta dos ovários é a contagem ultra-sonográfica dos folículos antrais (AFC). Embora o reconhecimento de seu valor não seja unânime, estudos mostram que a AFC apresenta nítida correlação positiva com as concentrações dos marcadores séricos conhecidos, principalmente o AMH (Fanchin et al, 2003; Visser & Themmen, 2005).  Muttukrishna et al, em 2005, afirmaram ser a AFC capaz de identificar 89% das pacientes más respondedoras previamente à estimulação com gonadotrofinas exógenas. Apesar da especificidade de 39%, os autores encontraram associação significativa com o número de oócitos obtidos após ciclos induzidos e a probabilidade de gravidez química (Muttukrishna et al, 2005). Broekmans et al, em 2006, conquanto não tenham considerado o valor da AFC na predição de má resposta ovariana, admitiu sua importância como teste de screening.

Enfim, embora ainda não existam dados na literatura que suportem a utilização de um único marcador da reserva ovariana para determinar se um casal deve ou não ser submetido a intervenções para obtenção de uma gestação, são promissores os avanços do conhecimento e, os testes disponíveis para avaliação da reserva ovariana são valiosos na triagem dos casais em serviços de infertilidade. A AFC e a dosagem sérica do FSH na fase proliferativa inicial concorrem, a princípio, por uma abordagem mais simples e de menor custo, mas cremos que o acréscimo do AMH à rotina dos ambulatórios de infertilidade traria grande benefício aos casais. Sendo assim, a associação de elementos propedêuticos em busca de uma fórmula adequada de abordagem, permitiria um avanço rumo a excelência da medicina reprodutiva.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 1 - Broekmans FJ, Kwee J, Hendriks DJ, Mol BW, Lambalk CB. A systematic review of tests predicting ovarian reserve and IVF outcome. Hum Reprod Update 2006; 12(6): 685-718.

2 - Fanchin R, Schonäuer LM, Righini C, Guibourdenche J, Frydman R, Taieb J. Serum anti-Müllerian hormone is more strongly related to ovarian follicular status than serum inhibin B, estradiol, FSH and LH on day 3. Hum Reprod 2003; 18(2): 323-7.

3 - Fanchin R, Taieb J, Lozano DHM, Ducot B, Frydman R, Bouyer J. High reproductibility of serum anti-Müllerian hormone measurements suggests a multi-staged follicular secretion and strenghtens its role in the assessment of ovarian follicular status. Hum Reprod 2005; 20(4): 923-927.

4 - Gruijters M, Visser J, Durlinger A, Themmen AP. Anti-Müllerian hormone and its role in ovarian function. Mol Cel Endocrinol 2003; 211: 85-90.

5 - La Marca A, Stabile G, Artenisio AC, Volpe A. Serum anti-Mullerian hormone throghout the human menstrual cycle. Hum Reprod 2006; 21(12): 3103-3107.

6 - La Marca A, Giulini S, Tirelli A, Bertucci E, Marsella T, Xella S, Volpe A. Anti-Mullerian hormone measurement on any day of the menstrual cycle strongly predicts ovarian response in assisted reproductive technology. Hum Reprod 2007; 22(3): 766-771.

7 - Muttukrishna S, McGarrigle H, Wakim R, Khadum I, Ranieri DM, Serhal P. Antral follicle count, anti-mullerian hormone and inhibin B: predictors of ovarian response in assisted reproductive technology? BJOG 2005; 112: 1384-1390.

8 - te Velde E, Pearson P. The variability of female reproductive ageing. Hum Reprod Update 2002; 8(2):141-54.

9 - Tremellen KP, Kolo M, Gilmore A, Lekamge DN. Anti-Müllerian hormone as a marker of ovarian reserve. Aust N Z J Obstet Gynaecol. 2005; 45 (1): 20-4.

10 - van Rooij IA, Broekmans FJ, te Velde ER, Fauser BC, Banci LF, de Jong FH, Themmen AP. Serum anti-Müllerian hormone levels: a novel measure of ovarian reserve. Hum Reprod 2002; 17(12):3065-71.

  11 - Visser JA, Themmen APN. Anti-Müllerian hormone and folliculogenesis. Mol Cel Endocrinol 2005; 234: 81-6

 

 


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