Contraceptivos Orais e Seus Benefícios no Tratamento das Patologias Ginecológicas 

Hugo Maia Filho

Diretor Científico, Sociedade Brasileira de Ginecologia Endócrina (SOBRAGE)
Diretor de Pesquisa, Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH)

Quando os anticoncepcionais foram desenvolvidos na década de 60, pouca atenção foi dada ao fato de que estes poderiam ser utilizados para tratar inúmeras patologias que afetam a mulher moderna (Asbel 1995).  Nestes últimos 50 anos, progestagênios mais potentes e com menos efeitos adversos foram desenvolvidos e introduzidos no mercado, embora os benefícios não contraceptivos do seu uso não fossem evidentes desde o inicio. Isto se devia em parte à falta de percepção por parte da comunidade médica de que a ocorrência incessante de ovulações e a inflamação associada com a menstruação fossem fatores de risco importantes para o desenvolvimento da endometriose, mioma, cistos ovarianos funcionais, doença inflamatória pélvica e o carcinoma de ovário e endométrio (Modugno 2005).  Nos últimos anos, entretanto ficou evidente que o uso de contraceptivos orais estava associado com um risco reduzido de desenvolver estas patologias. Os mecanismos envolvidos nestes efeitos benéficos não-contraceptivos são múltiplos e incluem não somente a inibição da ovulação, mas também uma ação local  no aparelho genital feminino, reduzindo a inflamação e a produção de estrogênios (Ebert 2005, Maia 2007).  O componente da pílula responsável por estas ações é provavelmente o progestagênio.  Estudos recentes mostraram, por exemplo, que o gestodeno quando dado de maneira contínua em associação com o etinil-estradiol (gestodeno 75 mcg, etinil-estradiol 30 mcg) tinha vários efeitos locais importantes no endométrio como, por exemplo, a inibição da expressão de enzimas ligadas com a síntese das prostaglandinas, particularmente a ciclooxigenase tipo II (Cox-2) (Maia 2005).  A inibição da produção de prostaglandinas explicaria assim os efeitos benéficos dos anticoncepcionais orais no tratamento da dismenorréia e dos outros sintomas ligados à repetição da menstruação. Entretanto, os efeitos não contraceptivos dos anticoncepcionais são ainda mais abrangentes, pois progestagênios como o gestodeno são também potente inibidores da expressão da aromatase no endométrio, reduzindo assim a produção local de estrogênios, que é um fator desencadeante importante para o desenvolvimento de inúmeras patologias ginecológicas como a endometriose, miomas, pólipos e adenomiose (Ebert 2005, Modugno 2005, Maia 2006, 2007).  O bloqueio destas enzimas com o uso sistêmico dos contraceptivos orais explicaria os benefícios não-contraceptivos destes não só no tratamento dos sintomas de dor e sangramento uterino associados com estas patologias, mas também para diminuir a sua progressão.  A redução da inflamação e da produção de estrogênio no endométrio pode ser também o mecanismo envolvido na redução da incidência de carcinoma de endométrio em usuárias de anticoncepcionais orais  (Modugno 2005, Maia 2007).

Em resumo, os anticoncepcionais orais reduzem a inflamação no aparelho genital feminino  através do bloqueio da aromatase e da Cox-2, e este efeito explicaria em parte a eficácia destes em tratar sintomas como dor e sangramento uterino anormal associados com a adenomiose, miomas, endometriose e pólipos endometriais.

Referências

Asbell B. The biography of the drug that changed the world. Random House, New York, 1995.

Ebert AD et al. Aromatase inhibitors and cyclooxygenase-2 (Cox-2) inhibitors in endometriosis.  New questions old answers? European Journal Obstetrics Gynecology & Reproductive Biology; 122:144-50, 2005.

Maia Jr. H, Maltez A, Studart E et al.  Effect of the menstrual cycle and oral contraceptives on cyclooxygenase-2 expression in the endometrium. Gynecological Endocrinology 21(1):57-61, 2005.

Maia H Jr et al. Effect of the menstrual cycle and oral contraceptives on aromatase and cyclooxygenase-2 expression in adenomyosis.  Gynaecol. Endocrinol. 22(10):1-5, 2006.

Maia Jr H, Pimentel K, Casoy J et al. Aromatase expression in the eutopic endometrium of myomatous uteri: the influence of the menstrual cycle and oral contraceptive use.  Gynecological Endocrinology 23:320-4, 2007.

Maia Jr. H e Casoy J.  Non-contraceptive health benefits of oral contraceptives. The European Journal of Contraceptive Health Care 13(1):1-8, 2007.

Modugno F et al. Inflammation and endometrial cancer: a hypothesis. Cancer Epidemiology. Biomarker Prevention 14(12), 2840-7, 2005.

 


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