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Quando
me perguntam se “hormônio dá câncer” respondo diplomaticamente que depende das
circunstâncias e passo a apresentar alguns estudos que sugerem que a resposta
poderia ser sim e outros que sugerem que a resposta deveria ser um categórico
não. Os hormônios sexuais são na realidade os principais responsáveis químicos
pela existência da vida animal porque sem eles não haveria sexo e sem sexo não
existiríamos. São os hormônios femininos, os estrogênios que transformam uma
criança em mulher enquanto os hormônios masculinos transformam outra criança em
um homem. A conclusão é óbvia; os hormônios nos dão a vida e a capacidade de
perpetuá-la através da reprodução. Enquanto estamos jovens produzimos esses
hormônios sexuais em abundância. Nessa fase reproduzimos à vontade e praticamos
o sexo intensamente como fonte principal de gratificação sensorial. Nesse
período de fartura hormonal que vai até a quarta década, o câncer é doença
relativamente rara. O câncer de mama, por exemplo, tem incidência inferior a 1%
antes dos 50 anos de idade. O câncer da próstata é igualmente raro antes da 4ª
década, ocorrendo geralmente na segunda metade da vida do homem quando a
produção de testosterona cai e a vida sexual diminue. Estima-se que se os
homens alcançassem 100 anos de idade a incidência do câncer nos centenários
poderia chegar aos 100%.
Deste modo parece que o aumento na incidência
tanto do câncer de mama quanto do câncer da próstata que ocorre na segunda
metade da vida está mais associado à falta dos hormônios do que ao seu excesso.
Entre os fatores que contribuem mais para o
aumento na incidência de cânceres após a quarta década se destacam o ganho de
peso, o consumo de bebidas alcoólicas, o fumo e a prática do sexo. 1
O ganho de peso que resulta da ingestão
exagerada de calorias ou da falta de exercício físico vem em primeiro lugar
porque pode ocorrer a qualquer um. Por cada fração de 10 kg que a mulher
acrescente ao seu peso a partir dos 20 anos de idade haverá um aumento de 30% no
risco de desenvolver câncer de mama. Com o consumo de álcool além das calorias
o consumidor aumenta o risco de câncer pelo efeito direto do álcool sobre as
células interferindo com a metilação do DNA. O consumo excessivo do álcool é
cada vez maior no Brasil. Estudo recente divulgado largamente nos jornais e
revistas (Isto É de 29/8/07) revela que 28% da população, cerca de 33 milhões de
habitantes, consome álcool excessivamente (pelo menos 5 doses em 24 horas).
Para esse terço da população é óbvio que o risco de vários tipos de câncer
estará aumentado. 2
Quanto ao fumo, não é nenhuma novidade que a
sua inalação aumenta o risco de câncer de pulmão, de bexiga e do pâncreas.
Assim, as pessoas que respiram uma atmosfera poluída pelo fumo (e outros
contaminantes industriais) têm risco aumentado de câncer como fumantes
secundários. 3
Em relação a prática do sexo poderíamos lembrar
que o câncer do colo do útero, o mais comum no Brasil, é provocado pelo vírus
HPV que é adquirido através da relação sexual. Isso se aplica também ao câncer
do pênis. Quanto mais freqüente e quanto mais variado o parceiro ou parceira
maior o risco de adquirir o vírus.
Os autores do famoso estudo da Women’s Health
Initiative (WHI), divulgado macicamente na mídia, atribuíam à reposição hormonal
com progesterona sintética um aumento de 20% na incidência de câncer de mama nas
mulheres americanas. Os mesmos autores revelaram logo depois com menos alarde
que a reposição hormonal com estrogênios conjugados sem a progesterona, além de
diminuir em 20% a incidência do câncer de mama, também reduzia para a metade a
incidência do câncer do intestino.
As evidências disponíveis revelam, portanto que
a comida e a bebida, consumidas livremente, contribuem mais para aumentar a
incidência de câncer do que os hormônios utilizados na reposição. Também servem
de alerta aos médicos para terem mais cuidado ao atribuir aos hormônios a
responsabilidade por cânceres que ocorrem em pessoas com excesso de peso.
Paracelso, famoso médico que ousou utilizar
sais minerais no tratamento de inúmeras doenças, afirmava que a diferença entre
o remédio e o veneno estava na dose. Isso se aplica também a comida, a bebida,
ao oxigênio do ar, à prática do sexo e aos hormônios. Em excesso aumentam a
fome, a sede e o desejo. Na dose certa, os hormônios, como a comida, a bebida,
o ar que respiramos e a prática do sexo, não causam câncer, e, muito pelo
contrário, nos asseguram a preservação da vida e da saúde.
Referências
1 -
A. Heather Eliassen, Graham A Colditz Bernard Rosner, Walter C. Willett, Susan
J. Hankison. Adult Weight Change and Risk of Postmenopausal Breast Cancer. JAMA,
July 12, 2006;296:193-201.
2 -
Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer. Collaborative
re-analysis of individual data from 53 epidemiological studies including 58,515
women with breast cancer and 95,067 women without the disease. Br. J. Cancer
2002;87:1234-45.
3 -
Su LY, Arab I. Alcohol consumption and colon cancer: evidence from the national
health and nutrition examination survey I: Epidemiologic follow-up study. Nutr.
Cancer 2004;50:111-19.
4 -
Kelly A, Blair N, Pechacek TF. Women and smoking issues and opportunities. J.
Women Health Gend Based Med 2001;10:515-18.
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