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Daniel Hideo Yoshizumi
Sônia
Maria Rolim Rosa Lima
Departamento de Obstetrícia e Ginecologia e Endocrinologia da Faculdade de
Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
A produção
ovariana de esteróides é importante para o desenvolvimento e funcionamento
adequado de vários órgãos na mulher, incluindo útero, mama, osso e cérebro. Além
disso, possuem ações locais que são essenciais para a fisiologia ovariana.
Assim, observa-se que tanto o estradiol quanto os andrógenos, são importantes
para o desenvolvimento normal do folículo; a produção local de progesterona,
juntamente com a ação do LH, é essencial para a ovulação.
Por outro
lado, a produção excessiva de esteróides leva a uma disfunção ovariana. O
exemplo clínico mais comum de aumento na sinalização dos esteróides ovarianos é
a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), caracterizada por excesso de
andrógenos ovarianos, crescimento folicular anormal e infertilidade decorrente
de anovulação crônica. Assim sendo, observa-se a importância do estudo das vias
de sinalização fisiológica na produção de esteróides ovarianos, para melhor
compreender suas disfunções.
A
esteroidogênese ovariana ocorre através da interação das duas células que
compõem o folículo ovarariano (células da teca e da granulosa). O andrógeno é
sintetizado a partir do colesterol na célula da teca, sob estímulo do LH, e é
convertido em estrógeno na célula granulosa, onde atua o FSH. O receptor de LH e
a enzima CYP17, que converte pregnenolona e progesterona em diidroepiandosterona
(DHEA) e androstenediona, são expressos primariamente na célula da teca,
enquanto o receptor de FSH e a aromatase (CYP19), que converte os andrógenos em
estrógenos, são expressos principalmente na granulosa. O receptor de LH também
se expressa curiosamente na porção externa da granulosa em resposta ao FSH,
antes do aparecimento do LH.
Tanto as
células da teca quanto as células da granulosa expressam a proteína reguladora
aguda da esteroidogênese (StAR), a CYP11A1 e a 3b-HSD, que permitem a ambas as
células produzir pregnenolona e progesterona a partir do colesterol. No entanto,
na fase folicular, as células da granulosa são relativamente avascularizadas, o
que resulta em baixa oferta de oxigênio e colesterol, e conseqüente pouca
produção de esteróides. Após a exposição às gonadotrofinas, as células da
granulosa se tornam luteinizadas, tornando-se capazes de produzir grandes
quantidades de pregnenolona e progesterona a partir do colesterol. Entretanto,
por não expressarem a CYP17, como ocorre na célula da teca, a progesterona
produzida não é metabolizada em andrógeno. Visto que a progesterona é necessária
para a ovulação normal e é capaz de promover a maturação do oócito, é importante
a compreensão adequada dos mecanismos de sinalização do LH nas células da teca
levando à produção de progesterona pela granulosa.
A proteína
StAR é responsável pelo transporte do colesterol da membrana externa da
mitocôndria para a interna, onde se localizam a maioria das enzimas envolvidas
na esteroidogênese, sendo portanto a proteína reguladora da produção dos
esteróides em vários tecidos. A sua expressão é regulada por diversos fatores,
entre eles a ativação do receptor de LH nas células da teca e possivelmente na
porção externa da granulosa. A ação do receptor de LH se faz através da ativação
da proteína G e de vários segundos mensageiros.
Os
receptores de FSH e LH estão acoplados a proteína Gas,
e quando ocorre a ativação do seu ligante, estimulam a adenilato ciclase que
gera um aumento intracelular de AMPc e subseqüente ativação da proteína quinase
A (PKA). A elevação do AMPc promove a esteroidogênese e aumenta a expressão da
StAR, bem como aumenta também a sua atividade através da fosforilação em serina.
Além disso, o AMPc regula outras proteínas importantes na esteroidogênese como a
CYP19 (Aromatase) e CYP17, nas células da granulosa e da teca respectivamente.
A ativação
da subunidade Gbg pelos receptores acoplados a proteína G, ativa o Src, que
desencadeia a cascata da via Ras/Raf/MEK/MAPK/ERK. A estimulação do LH e do FSH
pode aumentar a atividade da quinase sinalizadora extranuclear do receptor (ERK),
que subsequentemente eleva a expressão da StAR em alguns tecidos como a adrenal.
Por outro lado, a sinalização do Src e MAPK em culturas de células da teca leva
à inibição da produção de esteróides e diminui a atividade da CYP17 e de outras
enzimas, sendo que alguns trabalhos demonstraram que a deficiente sinalização da
MAPK contribui para a elevada atividade da CYP17 e conseqüente produção
androgênica na SOP.
Alguns
estudos demonstraram que os fatores de crescimento insulina-like (IGFs) estão
envolvidos na ativação da esteroidogênese ovariana. Através do receptor de IGF1,
aumentam a expressão de algumas enzimas como a CYP17, aromatase e CYP11A1, além
de aumentarem a transcrição do RNAm do receptor de LH. Porém, as vias de
sinalização do receptor de IGF ainda não foram esclarecidas, mas sabe-se que o
AMPc e o ERK estão envolvidos.
Outra
importante via de sinalização que é ativada pelo receptor de LH é o receptor do
fator de crescimento epidérmico (EGF). Os receptores acoplados a proteína G são
conhecidos por ativarem a sinalização do receptor de EGF por diversos
mecanismos. Por exemplo, a estimulação da Gas
acoplado ao
receptor b2-adrenérgico ativa a metaloproteinase matriz acoplada a membrana (MMPs)
que cliva a EGF ligada a heparina (HB-EGF) da superfície celular para auto
ativar o receptor de EGF.
Vários
estudos demonstraram que o receptor de EGF pode promover a esteroidogênse em
células gonadais. Assim como o LH, o EGF parece atuar através da ativação da
StAR. No entanto, a ativação do receptor de EGF se faz após a sinalização do
receptor de LH. Para justificar tal hipótese, demonstrou-se que é necessário
ocorrer a ativação do receptor de EGF para a produção de esteróides induzidos
pelas gonadotrofinas em folículos pré ovulatórios, uma vez que a inibição do
receptor de EGF bloqueia completamente a produção de progesterona induzida pelo
LH.
Por
mecanismos desconhecidos, o LH ativa uma ou mais MMPs na célula da teca e
possivelmente da camada externa da granulosa, que serão responsáveis pela
liberação das moléculas de EGF ligado a membrana. Estas moléculas solúveis de
EGF atuam tanto de forma autócrina quanto parácrina para ativar o receptor de
EGF, e leva a ativação da StAR e subseqüente produção dos esteróides. A inibição
específica das MMPs ovariana poderia ser uma forma efetiva de controlar a
produção de esteróides em doenças com produção excessiva, como a SOP.
A
concentração ovariana de esteróides varia de acordo com a fase do ciclo: a
concentração de andrógenos, estrógenos e progesterona encontram-se elevados
durante a ovulação e a concentração de estrógeno e progesterona atinge valores
maiores na fase lútea. Quando inicia a secreção de LH, a concentração de
progesterona aumenta rapidamente, e foi demonstrado que a sinalização da
progesterona é essencial para a ovulação, através da produção de proteases (catepsina
L e ADAMTS-1) que são responsáveis pela ruptura do folículo e liberação do
oócito.
O estradiol
atua através de 2 tipos clássicos de receptores: ERa e ERb. Nas células da
granulosa, expressa-se principalmente o ERb responsável pela modulação da ação
do FSH e estimulação do crescimento folicular induzido pelo estradiol. O
receptor ERa encontra-se em todos os locais do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.
O bloqueio desse receptor causa quadro de infertilidade completa. O folículo
desenvolve até a fase antral tardia, porém falha na maturação final, e leva a
hemorragia e formação de folículo atrésico. Isso pode ser explicado pelo excesso
de estimulação de gonadotrofinas, resultante da ausência de feedback negativo
pelo estradiol na hipófise. A inibição da aromatase (CYP19) produz também um
quadro de hiperestimulação de gonadotrofinas semelhante, resultando em
anovulação. Estes casos frequentemente apresentam falência ovariana com ovários
policísticos e moderada virilização decorrente da inabilidade de metabolização
dos andrógenos.
A célula da
teca é estimulada pelo LH a produzir andrógenos que agem de forma parácrina nas
células ovarianas. Uma das funções é modular a sinalização do FSH atuando
através do receptor androgênico (ARs) nas células da granulosa para amplificar a
concentração de AMPc. O bloqueio do ARs leva a uma falência ovariana prematura,
o que demonstra a importância dos andrógenos no desenvolvimento normal do
folículo.
Um processo
crítico para a fertilidade da mulher é a maturação do oócito, ou seja, retomada
da meiose. Os oócitos permanecem na prófase I da meiose até ocorrer o estímulo
das gonadotrofinas para o crescimento e desenvolvimento, quando restabelecem a
meiose até a metáfase II. A maturação do oócito foi bem estudada em um subtipo
de rã (Xenopus laevis), na qual os esteróides promovem este processo de
uma forma independente de transcrição gênica. Nesses animais, os andrógenos
atuam na sinalização inicial através dos ARs. O bloqueio da produção androgênica
reduz significativamente a maturação do oócito induzida pelas gonadotrofinas.
Nos mamíferos, os esteróides selecionam qual será o oócito que sofrerá maturação
inicialmente, visto que o folículo dominante apresenta maior concentração de
esteróide. O excesso de esteróides pode ser problemático, pois levará a
maturação desregulada dos oócitos e conseqüente infertilidade.
A SOP é a
causa mais comum de infertilidade e é caracterizada por aumento da produção de
andrógenos ovarianos e anovulação. A arquitetura ovariana é composta por
múltiplos folículos irregulares, que podem degenerar e apresentar oócitos não
funcionantes. Estas características são decorrentes de um descontrole no
crescimento folicular, com ausência da formação do folículo dominante que é
necessária para a ovulação.
A
resistência insulínica e a hiperatividade androgênica estão implicados no
desenvolvimento da SOP, porém discute-se qual dessas alterações seria a mais
importante. Um modelo proposto para demonstrar a inter-relação entre tais
alterações seria: concentrações normais de insulina estimulam a secreção basal
de andrógeno ovariano que participa no desenvolvimento do folículo. Por outro
lado, o hiperinsulinismo gera um aumento da produção ovariana de andrógenos que
leva à um descontrole do crescimento folicular, com ausência da formação do
folículo dominante e conseqüente anovulação.
Como a
elevação da ação androgênica no ovário contribui para a ocorrência da SOP,
antagonista androgênicos poderiam auxiliar no tratamento. Já são utilizados com
esse propósito a flutamida e a espironolactona. No entanto, o bloqueio das vias
de sinalização responsáveis pela produção androgênica seriam uma outra
alternativa. Uma possibilidade seria bloquear a atividade do receptor de EGF e
as MMPs que são importantes para a esteroidogênese ovariana. Outros estudos
unindo a pesquisa laboratorial com as clínicas de infertilidade permitirão a
descoberta de novos conhecimentos e novos avanços terapêuticos no campo da
reprodução feminina.
Referências consultadas
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Michelle Jamnongjit1 and Stephen
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Shiina H, Matsumoto T, Sato T,
Igarashi K, Miyamoto J, Takemasa S, Sakari M, Takada I, Nakamura T, Metzger D,
Chambon P, Kanno J, Yoshikawa H, Kato S. From the Cover: Premature ovarian
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Outras disponíveis com os autores. |