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Hugo
Maia Filho
- Diretor Científico,
Sociedade Brasileira de Ginecologia Endócrina (SOBRAGE)
- Diretor de Pesquisa,
Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH)
- Professor de Ginecologia,
Universidade Federal da Bahia (UFBA).
As evidências mais recentes mostram que a inflamação tem um papel importante na
gênese das patologias uterinas benignas ou malignas.1 O aumento da
inflamação no endométrio é deflagrado pelos estrogênios, já que estes hormônios
ativam grande número de enzimas ligadas à este processo, como por exemplo a
ciclooxigenase tipo II (Cox-2), que catalisa a transformação do acido
araquidônico em prostaglandinas, principalmente as do grupo E.2,3 As
prostaglandinas estão envolvidas na regulação de grande numero de processos no
endométrio como proliferação celular, angiogênese e apoptose, além, é claro, do
seu envolvimento na dismenorréia.1,4 Por este motivo os estrogênios,
quando estimulam a atividade da Cox-2 no endométrio, aumentam o risco de se
desenvolver patologias como a endometriose, pólipos endometriais e adenomiose
neste tecido já que uma expressão exacerbada desta enzima é detectada nestas
lesões.1,5,6 Os estrogênios estimulam também a produção de fatores
angiogênicos pelo endométrio através do aumento da inflamação e com isto eles
aumentam o risco de sangramento uterino.7 Este mecanismo
é muito importante na fisiopatologia do sangramento uterino anormal provocado
pela presença de miomas, já que este está relacionado não só com o tipo de
mioma, mas também com a presença de inflamação. Assim tanto os níveis de
prostaglandinas como o número de células inflamatórias estão mais elevados nos
miomas submucosos e intramurais do que nos subserosos, e estas diferenças estão
relacionadas com a maior incidência de menorragia nos primeiros.8 Este aumento da inflamação provocado pelas prostaglandinas leva também a um
aumento da produção local de estrogênios no endométrio através da ativação da
enzima aromatase.9 As prostaglandinas são, portanto potentes
indutores da enzima Cox-2 e com isto elas aumentam o sangramento uterino, já que
os estrogênios estimulam a formação de fatores angiogênicos como o VEGF no
endométrio. Neste aspecto é interessante lembrar que a presença de sangramento
uterino anormal em pacientes com miomas uterinos está também relacionada de uma
maneira positiva com a expressão da enzima aromatase no endométrio, já que esta
enzima está ausente nos casos de miomas subserosos assintomáticos. 10 Devido ao envolvimento da aromatase e da inflamação na patologia endometrial 1, o uso de inibidores da aromatase passou a ser cogitado como umas
das formas promissoras para o tratamento de diversas patologias ginecológicas
como a endometriose e o mioma uterino. Entretanto poucos ginecologistas se
lembram que a progesterona é um antiinflamatório no útero tão potente quanto o
corticóide, já que esta inibe os mediadores inflamatórios como o NF-kappa B,
Cox-2 e as citocinas inflamatórias.1,3 A menstruação, que é um
fenômeno que envolve inflamação, é deflagrado pela queda da progesterona e a
ativação dos mediadores inflamatórios como, por exemplo, a Cox-2 e diversas
citocinas inflamatórias.1,3 A progesterona também inibe a expressão
da enzima aromatase no endométrio das pacientes com miomas uterinos.10 Este efeito inibidor da progesterona sobre a aromatase é também compartilhado
pelo gestodeno 5,6,10 e pelos outros progestogênios.11 Desta maneira o uso contínuo de contraceptivos orais contendo 75 mcg de
gestodeno com 35 mcg de etinilestradiol leva a uma inibição da expressão tanto
da enzima aromatase como da Cox-2 no endométrio, causando assim uma redução da
inflamação e da produção local de estrogênios no endométrio. Por este motivo os
contraceptivos orais contendo gestodeno são eficazes na redução do sangramento
uterino provocado pela presença de miomas e outras patologias ginecológicas.12,13 A redução da inflamação e da produção local de estrogênios com o uso de
progestogênios é, portanto um dos mecanismos mais importantes para os efeitos
benéficos não contraceptivos dos anticoncepcionais orais, principalmente quando
utilizados de maneira contínua.13 A inflamação está envolvida em
diversos processos patológicos que ocorrem no aparelho genital feminino, e,
portanto a sua inibição através do uso de progestogênios como o gestodeno, que
tem uma elevada afinidade pelo receptor da progesterona, constitui um dos
mecanismos importantes para explicar a eficácia terapêutica dos contraceptivos
orais nestas patologias.
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