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Elsimar
Coutinho
Apesar da enorme influencia da educação e da convivência no desenvolvimento dos
nossos afetos, nada supera o vínculo familiar, que une pais e filhos. A
importância que atribuímos aos familiares ultrapassa qualquer outro tipo de
vínculo afetivo, o que justifica a reflexão de que a “tragédia só nos importa
quando bate em nossa porta”. Não significa essa exagerada valorização dos nossos
que só eles nos importam, porém a importância que atribuímos aos outros diminue
à medida que nos distanciamos pelos laços de sangue e pela convivência em função
do grau de identidade que guardamos com aqueles que não fazem parte da família.
A hierarquia começa dentro da própria família. Filhos, mãe, pai, irmãos, avós,
primos, tios e sobrinhos, geralmente nesta ordem. A partir daí surgem os
parentes por afinidade, cunhados, esposos ou esposas dos tios, primos e
sobrinhos. As diferenças entre os gêneros começam desde o nascimento e se
reforçam no período de amamentação que asseguram a mãe, mas não ao pai a certeza
da maternidade. Não surpreende, portanto, que na hierarquia dos afetos a mãe
supere o pai. Obviamente que a entrada de um novo membro na família implica na
sua eleição se ele ou ela assume o vínculo com a nova família. O grau de
afinidade com o novo membro, seja ele um cunhado, um sogro ou sogra, genro ou
nora, varia de acordo com a personalidade do novo membro e a eventual
assimilação pelos outros membros da família. A importância do vínculo familiar
não é apenas um fenômeno natural que sofre influencias culturais. É igualmente
um elemento de suma importância no Direito que atribue à família prioridade
hierarquizada na herança. Os reis abdicam em favor dos filhos, obedecendo à
hierarquia. No mundo capitalista, as heranças são divididas com a família. E até
no mundo comunista, que considera a questão da família uma “atitude” pequeno
burguesa, são os descendentes diretos que tem a precedência nos privilégios que
gozam os dirigentes. Fidel Castro colocou o irmão como sucessor e o atual
presidente da Coréia do Norte “herdou” do seu pai a presidência. Oscar Niemeyer,
comunista convicto que acaba de completar 100 anos de idade, confessa que a
família é tudo para ele, seguida dos amigos e, por último, “os pobres deste
país”.
Os amigos vêm sempre depois da família e a eles atribuímos a importância que
varia com as afinidades eletivas e da comunhão de interesses, gostos e ideais.
Depois dos amigos vêm os colegas, os mestres, os sócios do clube que
freqüentamos e os torcedores do time pela qual torcemos.
Somente depois de todos aqueles com quem dividimos nossos primeiros interesses é
que comparecem aqueles que não conhecemos, mas que têm conosco algo em comum.
São os moradores do mesmo prédio, seguidos pelos moradores da mesma rua, que por
sua vez são seguidos por aqueles que moram no mesmo bairro. O vínculo afetivo
vai se diluindo a medida que os interesses comuns vão desaparecendo, mas mesmo
assim alguma afinidade ainda existe entre os moradores da mesma cidade, seguidos
dos que moram no mesmo estado ou até na mesma região do país onde se encontra o
seu estado ou o continente onde se encontre seu país. Depois do país vêm as
pessoas que não vivem no país, mas têm a mesma nacionalidade. Os brasileiros se
sentem atingidos quando outro brasileiro é maltratado em outro país como o jovem
que foi morto por engano pela polícia britânica, mas são indiferentes aos
indivíduos de outra nacionalidade que sofram o mesmo tipo de agressão.
Tragédias imensas como a destruição das torres de Nova York foi lamentada pelo
presidente do Brasil somente por que desapareceram uns poucos brasileiros no
momento da colisão que matou mais de 4.000 americanos. Do mesmo modo a tsunami
que matou milhares de pessoas na Ásia não tirou o sono dos brasileiros.
Os religiosos costumam chamar de irmãos aqueles que comungam da mesma fé.
Aqueles que admiramos pelas suas qualidades revelamos nossa admiração externando
o nosso desejo de que fossem nossos parentes. “Queria ter um filho assim!” ou
para os mais velhos “Queria ter um pai como você!!”. O meu querido amigo Ronald
Bossemeyer com quem convivi ao longo dos últimos 40 anos me convidou um dia
solenemente para tornar-me seu irmão. Aceitei o convite comovido.
Os principais agentes da afecção que desenvolvemos em relação aos nossos
semelhantes são os hormônios que atuam na área reprodutiva. Isso inclue, além
dos hormônios do ovário e do testículo que definem a importância do sexo na
hierarquia do afeto, hormônios como a vasopressina e a ocitocina, que em
associação com a prolactina asseguram o comportamento maternal aos mamíferos. É
justamente no período da amamentação que se estabelecem os mais sólidos vínculos
entre a mãe e os seus filhos. Nesse período a testosterona, principal agente da
atração sexual, é neutralizada pela prolactina, que inibe a libido não somente
da mãe, mas também, do pai.
Os estrogênios cuja produção depende das gonadotrofinas e dos fatores
hipotalámicos de liberação como o LH-RH e a vasopressina, devem ser
indispensáveis porque sem eles não haverá terreno para a ação dos demais. A
testosterona, que é o hormônio do desejo, parece ter mais a ver com o sexo e a
agressividade do que com o afeto. Alguns estudos confirmam na realidade a
diminuição da testosterona nos homens em situações que conduzem ao
desenvolvimento do afeto. Fenômeno oposto ocorre nas mulheres cujos níveis de
testosterona se elevam quando há receptividade sexual. 1-3
Apesar da complexidade do fenômeno e da participação de outros hormônios como o
cortisol e a melatonina no desenvolvimento do afeto, o hormônio que parece
influir no amor e na amizade mais do que qualquer outro é mesmo a ocitocina. 4
Não é de admirar que a peptida seja essencial para a amamentação, período da
vida quando o laço afetivo se estabelece mais fortemente entre mãe e filho. 5
Infelizmente, as afinidades eletivas que explicam o caráter avuncular do nosso
comportamento social e que estabelecem laços afetivos de maior intensidade com
os parentes mais próximos representam também poderoso agente gerador do
nepotismo, do sectarismo, de tribalismo, do bairrismo, do nacionalismo, do
racismo e outros movimentos e ações preconceituosas, além de se constituir no
principal obstáculo à desejada igualdade pregada, mas raramente praticada pelas
religiões monoteístas e algumas ideologias.
Referências
1. Marazziti D e Canale D. Hormonal changes when falling in love.
Psychoneuroendocrinology 2004; 29(7): 931-6.
2. McIntyre M, Gangestad SW, Gray PB et al. Romantic involvement often
reduces men’s testosterone levels – but not always: the moderating role of
extrapair sexual interest. Pers. Soc. Psychol. 2006; 91(4): 642-51.
3. Kosfeld M, Heinrichs M et al. Oxytocin increases trust in humans.
Nature 2005; 2; 435 (7042):571-2.
4. Kendrick KM. The neurobiology of social bonds. J. Neuroendocrinology
2004; 16(12):1007-8.
5. Neumann ID. Oxytocin: the neuropeptide of love reveals some of its
secrets. Cell Metab. 2007; 5(4):231-3.
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